Um ano após morte de Floyd, EUA tentam lidar com alta de crimes e revolta contra polícia

Um ano após morte de Floyd, EUA tentam lidar com alta de crimes e revolta contra polícia

Quando os americanos de idades e grupos étnicos diferentes tomaram as ruas, em junho de 2020, para protestar contra a morte do cidadão negro George Floyd, sufocado por um policial branco em Minneapolis, a indignação correu mundo e inspirou movimentos de justiça racial em dezenas de cidades.

Um ano depois, o país enfrenta um agravamento da crise de segurança —os assassinatos cresceram pelo menos 25%, segundo estimativas do FBI, mas há quem fale em aumento de 40%, na maior alta registrada desde 1960, quando esse tipo de estatística começou a ser coletada.

Manifestantes participam de marcha em memória a George Floyd, em Minneapolis – Kerem Yucel – 23.mai.21/AFP

Só em Nova York, há três décadas vitrine internacional do combate ao crime, tiroteios cresceram 80%. E a segurança, agora, é a segunda prioridade citada por nova-iorquinos que vão eleger um novo prefeito em novembro.

Fora de Minneapolis, onde a memória de Floyd está gravada na história local, o país que emerge da pandemia luta para conciliar a revolta com a violência homicida do já condenado policial Derek Chauvin com o temor pela segurança. O apetite por reformas arrefeceu. A cidade de Los Angeles, depois de cortar o orçamento da polícia, em 2020, vai reverter a decisão, com o aumento de crimes com armas de fogo.

Pela primeira vez, desde 2009, Los Angeles teve mais de 300 homicídios em 2020 —o que representa uma alta de 20%. No primeiro trimestre deste ano, houve 46% mais homicídios do que no mesmo período do ano passado.

O primeiro flagrante moderno da violência racial que está no DNA da polícia americana foi o vídeo do espancamento do negro Rodney King. Quando os quatro policiais acusados foram absolvidos, em 1992, o sul de Los Angeles pegou fogo, e a cidade viveu seis dias de revolta que provocaram 50 mortes.

Foi nesse turbulento Departamento de Polícia de Los Angeles que ingressou, aos 22 anos, a futura sargento negra Cheryl Dorsey. “Cresci desconfiada da polícia”, diz ela à Folha. Aos 16 anos, Dorsey havia testemunhado um assassinato e fora forçada, sob intimidação, a depor no tribunal.

Mas a carreira policial, com direito a pensão depois de duas décadas de serviço ativo, atraiu a mãe divorciada com um filho. Dorsey percebeu cedo o racismo que, segundo ela, está vivo e ativo entre os ex-colegas. Mas, como rara mulher negra nas patrulhas uniformizadas em pares, acredita que seus parceiros se continham ao lidar com suspeitos negros porque temiam que pudesse cruzar a chamada “parede azul”, o código de silêncio entre policiais.

Dorsey nunca esteve envolvida em incidente de violência policial e teve “desligamento honroso” da força em 2000. Pouco antes de se aposentar, denunciou um capitão por assédio sexual. “Não deu nem tempo de voltar do local onde registrei a denúncia e ele já tinha sido alertado,” lembra.

Ela vê hipocrisia na onda de piedades proferidas por comandantes policiais, inclusive os oficiais negros, após a morte de George Floyd. “Todo comandante já foi um policial, conhece bem seu departamento,” diz. E cita o exemplo de Derek Chauvin, que já era notoriamente violento, com 18 queixas registradas antes do assassinato na abordagem em Minneapolis.

“O comandante Medaria Arradondo, que depôs contra Chauvin no julgamento, sabia exatamente quem ele era e nada fez”, diz Dorsey. É o mesmo Arradondo, que, ainda policial, anos antes de ser promovido, ganhou na Justiça um processo por discriminação racial contra o departamento de polícia de Minneapolis.

Um episódio dramático perturbou Cheryl Dorsey e a motivou, em parte, a escrever o primeiro de dois volumes de memórias, em 2013, sob o título “Black and Blue – A Creation of a Manifesto” (negra e azul – a criação de um manifesto, em tradução livre). Em 2013, o ex-agente negro Christopher Dorner morreu depois de um cerco policial. Ele era caçado por assassinar quatro pessoas, numa campanha de vingança por ter sido demitido da polícia anos antes por problemas disciplinares que negava. “Claro que fiquei chocada com a violência, mas eu sabia que injustiças que Dornan havia denunciado eram reais,” lembra Dorsey.

Em 2014, quando mortes de negros americanos nas mãos de policiais provocaram uma onda de protestos, Dorsey intensificou seu ativismo por justiça racial, falando em público aconselhando famílias de vítimas, “como a mãe de quatro rapazes que sou”.

Ela não acredita que enxugar os departamentos de polícia seja a solução —como tem sido proposto pelos grupos que sugerem menos financiamento para a polícia. Defende avaliação psicológica regular de policiais e a admissão de que o problema do racismo sistêmico é real. Afinal, lembra, há 15 anos o FBI concluiu um estudo sobre a infiltração de defensores da supremacia branca nas forças policiais do país. Cheryl Dorsey afirma que a polícia de Los Angeles tem conhecimento de 17 grupos secretos de policiais simpatizantes de supremacia branca ou gangues latinas. “Eles têm até tatuagens de iniciação”, diz.

Avaliação psicológica deve ser prioridade absoluta, segundo o ex-comandante do Departamento de Polícia de Detroit, em Michigan. Isaiah McKinnon, hoje professor da Universidade Detroit Mercy, começou na força em 1965, no auge das lutas pelos direitos civis, já tendo sido espancado por policiais na adolescência.

Sofreu discriminação constante e sabia de colegas que guardavam o roupão da Ku Klux Klan no porta-malas do carro. Depois de um distúrbio racial, em 1967, ainda estava uniformizado quando foi parado por dois policiais brancos. McKinnon se identificou, mas um deles reagiu, “você vai morrer hoje”, usando um xingamento racial. O policial começou a disparar, e McKinnon escapou porque acelerou o carro. Ele deixou o departamento nos anos 1980, mas voltou em 1993 com um convite para assumir o comando.

O caso de McKinnon não é incomum. Negros americanos entram para as academias de polícia sabendo o que vão enfrentar e confiantes de que podem fazer uma diferença. “Sou um eterno otimista,” diz McKinnon à Folha. Ele viu nos protestos de junho uma adesão mutirracial semelhante à que testemunhou nos anos 1960. Ele também não acredita em redução de policiais. “Houve, de fato, um problema de militarização das polícias, que saíram comprando equipamentos pesados. Elas não precisam de tanques.”

Além da avaliação regular, McKinnon acha que a polícia precisa lidar melhor com o aumento de incidentes que envolvem doentes mentais. “Eles não foram treinados para agir nestas emergências, precisam de pessoal especializado”, argumenta.

O outro grande obstáculo à reforma nas forças de segurança nos EUA são os sindicatos de policiais, lembra McKinnon. Há organizações que defendem policiais autores de crimes com um corporativismo fanático. “No dia do veredicto de Derek Chauvin por homicídio”, relata, “um jovem oficial negro me contou que seus colegas brancos explodiram em revolta numa delegacia”.

Na divisão de Nova York da centenária ACLU, a Associação Americana de Liberdades Civis, o advogado e conselheiro Michael Sisitzky dirige um projeto de promoção de transparência policial. Numa conversa com a Folha, ele confirma que os sindicatos de policiais, bem financiados e com expressiva influência eleitoral são um impedimento para reformas. “Um exemplo da influência nefasta”, explica, “é o poder que têm de interferir nos estágios de processos disciplinares contra policiais”.

Sisitzky cita um momento decisivo no governo do prefeito nova-iorquino Bill de Blasio, que está terminando seu segundo mandato e não pode se reeleger. De Blasio, um político de perfil à esquerda do Partido Democrata, elegeu-se numa plataforma de justiça racial no policiamento. Em dezembro de 2014, dois policiais foram mortos numa emboscada no bairro do Brooklyn. Havia um mar de policiais nos funerais. E eles deram as costas ao prefeito quando ele discursou, num desafio que ocupou manchetes no país. “De Blasio ficou intimidado, não teve mesmo ímpeto reformista desde então”, diz Sisitzky.

A referência ao incidente fez esta repórter recordar um período em que tinha número fixo e endereço incluídos na lista telefônica de Nova York, nos anos 1990. Recebia periodicamente chamadas da PBA, a Patrolman’s Benevolent Association, um sindicato que representa 24 mil dos 36 mil policiais da cidade. Os telefonemas eram sempre na hora do jantar, e o representante pedia doações para a PBA num tom de insistência que me dava um frio na espinha.

Na semana passada, a procuradora do estado de Nova York, Letitia James, anunciou uma proposta de lei para coibir o uso de violência no policiamento que inclui penalidades maiores para policiais. A PBA, que já bate cabeça com a procuradora desde os protestos raciais de junho passado, imediatamente atacou a lei e não será surpresa se usar seu fôlego financeiro para apoiar um eventual rival de James na campanha de 2022.

Fonte: 1.folha

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