Tropa de choque de Bolsonaro tenta silenciar as mulheres na CPI da Covid – e se dá mal

Tropa de choque de Bolsonaro tenta silenciar as mulheres na CPI da Covid – e se dá mal

 A sessão da CPI da Covid desta quarta (5) foi palco de uma batalha entre a bancada feminina, que tenta garantir sua participação na investigação sobre a gestão temerária do governo federal durante a pandemia do novo coronavírus e os repasses federais a estados e municípios, e a tropa de choque do presidente Jair Bolsonaro, que tentou silenciar as senadoras que sequer dispõem de uma cadeira na comissão, seja como titular ou suplente.

O bate-boca começou quando, após as perguntas do relator Renan Calheiros (MDB) e do vice-presidente Randolfe Rodrigues (Rede), o presidente da CPI Omar Aziz (PSD) avisou que daria 15 minutos para a senadora Luiziane Gama (Cidadania) interrogar o ex-ministro da Saúde Nelson Teich, a segunda testemunha da CPI.

Senadora pelo Maranhão, Luiziane é da ala independente e entusiasta da participação da bancada feminina – que também conta com senadoras governistas – na CPI. Em entrevista ao GGN [assista aqui], ela explicou que seu bloco só tinha direito a uma cadeira na comissão e o posto foi dado a Randolfe, cuja participação era praticamente compulsória já que ele é o autor do requerimento de instalação da CPI.

Sem assento, a bancada pleitou participar dos debates da CPI, fosse ao menos indicando uma senadora para fazer perguntas na fila de titulares, e outra para interpelar na vez dos suplentes. O presidente Omar consultou os senadores na sessão de terça (4), achou que havia consenso e atendeu ao pedido, além de dar um passo a mais: garantiu maior protagonismo à primeira senadora, que falaria antes dos homens titulares, logo após o vice-presidente e o relator. A tropa de choque não aceitou pacificamente.

Se os partidos não indicaram mulheres à CPI “a culpa não é nossa”, disparou o senador Ciro Nogueira (PP). “Eu vou aceitar [a participação da bancada feminina] hoje, em respeito à senadora [Luiziane]. Nada contra a senadora, mas isso não está no regimento, não foi acordado pela comissão.”

“Não entendo tanto medo das vozes femininas”, respondeu Luiziane. Ciro tentou negar que não é uma postura machista, apenas técnica e apegada ao regimento interno.

O presidente da CPI admitiu que a “concessão feita por nós não está no regimento”, mas defendeu que era uma “concessão necessária não porque elas são mulheres, mas porque elas têm uma representatividade igual à nossa.”

“Há uma grande diferença entre privilégio e prerrogativa. Privilégio é inadmissível no Estado de Direito e as mulheres desta Casa nunca vão pleitear. Prerrogativa é diferente. (…) Nós não temos direito a requerimentos, não temos direito a votar, nós só pedimos gentilmente a fala na comissão. Não estamos pleiteando a titularidade! Apenas uma questão de ordem para falar”, disse a senadora Simone Tebet (MDB).

“Mas não pode ser! Arrepia a legitimidade daqueles que o povo elegeu”, rebateu o senador Fernando Bezerra (MDB), líder do governo no Senado. Nas palavras de Luiziane, ele está “descontrolado” desde ontem, quando a CPI começou a ouvir os ex-ministros da Saúde de Bolsonaro.

Para ela, o Senado eventualmente precisará debater que “em casos de comissão que não tenha participação de uma mulher, que a bancada indique uma. De fato, precisamos alterar [o regimento]. Agora, analisando do ponto de vista da razoabilidade, essa comissão tem 18 membros entre titulares e suplentes, e a gente não tem uma representante feminina. É uma concessão para fazer o debate.”

Bolsonarista, o senador Marcos Rogério (DEM) deixou claro o incômodo em ouvir mulheres na CPI. Mesmo com representantes governistas na bancada feminina, ele acha que elas só querem estar ali para atacar o presidente Bolsonaro.

“Quando da ocupação de assento numa CPI, isso tem peso não só na questão da votação, na deliberação dos requerimentos aqui. Isso tem peso em relação à narrativa que está sendo feita no âmbito dessa comissão e para a sociedade. Me parece que [elas] buscam engrossar o coro daqueles que querem dar peia no presidente Bolsonaro”, comentou. Luiziane, com dedo em riste, respondeu que “isso não é verdade”.

Depois, para indignação das senadores, Marcos Rogério declarou: “Se a bancada feminina quer assento nessa comissão, forme um partido político e tome assento com titulares. Aqui as prerrogativas são asseguradas pelo regimento interno. Esse negócio de sexismo [não existe].” Coube à senadora Leila Barros (PSD) responder: “Nós entramos todos pela mesma porta. Eu entrei nesta Casa do mesmo jeito que o senhor: com votos legítimos.”

A sessão foi suspensa após a discussão. Na volta, Omar Aziz deu a palavra à senadora Luiziane, que disse que senadores governistas estavam lhe olhando com “cara feia”, mas não conseguiriam “intimidá-la”.

Em sua intervenção, a senadora Luiziane tirou de Teich algumas informações. O ex-ministro disse que não viu filhos do predidente Bolsonaro em reuniões sobre a pandemia, ao contrário do que afirmou o antecessor Luiz Henrique Mandetta na véspera. Teich afirmou que tinha um plano para frear as cadeias de transmissão do vírus a partir de estratégias possíveis de distanciamento social, mas não sabe o que aconteceu depois que saiu do Ministério.

Sobre as vacinas, afirmou que garantiu à Fiocruz a parceria com a Universidade de Oxford pelo desenvolvimento da vacina da Astrazeneca, quando o estudo ainda estava em fase embrionária. Ele reafirmou que saiu do Ministério porque não tinha autonomia. Disse que o general Eduardo Pazuello foi colocado por Bolsonaro no segundo cargo mais importante da Pasta e que ele concordou, porque achou que o militar seria necessário na distribuição de insumos pelo Brasil.

Teich negou que tenha sido orientado a reduzir a comunicação com a imprensa sobre a pandemia, que antes era feita diariamente por Mandetta. Ele disse que jamais se encontrou com o ministro da Economia, Paulo Guedes, para tratar da pandemia. Tampouco concordou com o uso da cloroquina nem em promoção de supostos “tratamento precoces”. Não tinha noção de que Bolsonaro agia paralelamente para emplacar essa falsa solução para a crise sanitária.

O ex-ministro foi, por muitas vezes, escorregadio, desmemoriado e um tanto quanto leniente com o negacionismo de Bolsonaro, a quem poupou críticas diretas na CPI. A senadora Simone Tebet encerrou a comissão dizendo que o médico não percebeu que foi um inocente útil, usado por Bolsonaro como “garoto propaganda”. O presidente precisava passar a mensagem de que estava fazendo tudo certo na pandemia porque tinha um médico comandando o Ministério. Na prática, Bolsonaro impediu que o Brasil se preparasse e enfrentasse devidamente para o surto sanitário que se instalou em março de 2020.

Fonte: jornalggn

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