Reestreia neste sábado o espetáculo Anjo Negro, que une teatro online e cinema

por Mariana Mollica

A Peça-série-metragem Anjo Negro, adaptação do texto de Nelson Rodrigues, é uma forma hibrida entre o teatro online e o cinema, uma criação genial do psicanalista e diretor de teatro Antonio Quinet, que foi extremamente elogiada por cineastas como Silvio Tendler e Murilo Salles, que já assistiram. Sucesso de bilheteria online em 2020, toda encenada durante a pandemia, a peça volta aos palcos das telas a pedido do público, abrindo o ano de 2021. As reprises do 1º Ato (A Maldição) acontecem nos dias 30 de janeiro e 6 de fevereiro (sábados) e as reprises do 2º Ato (A Vingança) nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro (aos domingos), às 20h, na plataforma zoom – com vendas pela sympla.

Encenada pela primeira vez em 1952, Anjo Negro foi escrita em 1948, tendo como tema central o racismo, numa época em que o negro era sub representado, sempre como figurante ou com tom de humor. A atualidade de Anjo negro se torna absolutamente oportuna, pois o racismo estrutural desde sempre denegado e encoberto no discurso social, ainda que extremamente violento e ruidoso, veio à tona da maneira mais mortífera com o bolsonarismo, agravado pela pandemia da desigualdade brasileira, que mais parece um projeto de extermínio.

Embora Nelson Rodrigues tenha se inspirado no mito grego de medeia para a construção da obra, a montagem brasileira explora de forma aprofundada os fundamentos do mito da democracia racial, que vive da ilusão da cordialidade e do multiculturalismo, fruto da miscigenação racial. O que nos impacta ao assistir à peça é que somos tocados em nossos mais íntimos afetos por aquilo que reveste o real dessa falácia, já que, ao espírito fanoniano, somos confrontados com a impossibilidade do fruto do amor entre uma mulher branca e um homem negro, dado nossa história colonial que continua absolutamente forte no sintoma da neurose cultural brasileira, como diria Lélia Gonzales. Seja por censura ou porque Nelson Rodrigues fora extremamente mal interpretado, essa obra foi pouquíssimas vezes encenada. Anjo Negro é um ser paradoxal, já que a figura da criança branca, loira e cheia de pureza aqui é revertida pelo desejo do encontro racial impossível, drama da colonização e do projeto higienista de miscigenação entre o branco europeu e o escravizado negro. O fruto desse desejo, simbolizado pela criança negra, precisa ser eliminado; eis o futuro do Brasil impedido de prosperar. Somos todos os brasileiros filhos desse projeto de assassinato de uma origem, apagamento de nossa história.

 Após cada apresentação, psicanalistas e convidados do campo das artes, da filosofia, da cultura e das lideranças populares, negros e brancos travaram – durante o mês de dezembro e agora em continuidade a partir de hoje – debates instigantes e arrebatadores com o público e com o elenco.  O grande ator Deo Garcez protagoniza o espetáculo com o personagem de Ismael, o médico negro que acendeu socialmente e que encarna uma figura paradoxal. Casado com Virgínia, essa mulher branca presa e angustiada pelo próprio racismo, tão bem interpretada por Joana Lima Silva, que por sua vez deseja Elias, o homem cego que desperta as mais intensas interpretações sobre a venda colocada nos olhos da sociedade brasileira.  Elias é brilhantemente encenado por Lucas Gouvêa e Ana Maria, a doméstica, que traz o grito de liberdade, é belamente encarnada pela força artística de Lucélia Pontes.

 Sura Berditchevsky, convidada para encenar o segundo ato destaca: “Anjo Negro me recoloca junto a Nelson Rodrigues. Em plena pandemia da Covid-19 que abala e transforma o mundo, busca-se um novo meio, uma nova linguagem de nos comunicarmos uns com os outros, de nos aproximarmos e, resistentes, exercermos nosso ofício, nossa arte. Vivo este trabalho como um ato de resistência no Brasil atual que menospreza, deprecia e marginaliza o patrimônio artístico e intelectual. Um Brasil disseminado pelo preconceito, raivoso e intolerante”.

Anjo negro recoloca para os brasileiros a importância do teatro, nos leva à imersão de um conflito que se inicia na dualidade dos sexos e se prolonga para um espaço de luta sem reconciliação, mas que com a beleza estética da música e das cenas, do texto magnifico, algo desse horror nos permite encontrar com um ponto de basta. O atravessamento absolutamente singular, que progride para a experiência da contradição dos sentimentos ambivalentes de amor e ódio se encontra com a elaboração da tragédia coletiva que vivemos. Antônio Quinet nesse sentido foi brilhante, porque pinçou uma obra magnífica quase esquecida e trouxe para a cena pública o artificio da dramaturgia, com seu surpreendente potencial sublimatório, quando estamos todos reclusos e impotentes frente o extermínio da população pobre, afrodecendente, indígena e LGBTQI+ e também dos idosos, cada vez mais descartados por um governo que despreza o valor da sabedoria, das tradições, da vida. Com a pandemia, estamos praticamente impossibilitados de fazer o luto de tanta gente, seja porque são muitos os que morrem pelo Coronavírus, pelo descaso, pelo fuzil ou pelo desgosto, seja porque estamos impedidos do encontro entre nossos corpos. Em meio à peça, muitas vezes ocorre a sensação de uma suspensão da temporalidade, a gente não sabe mais se está no teatro, no cinema, se está sonhando ou meio embriagado.

Escrito como uma tragédia grega, o coro em Anjo Negro é composto por rezaderas, que nessa montagem tão original de Quinet, são negras lindas que cantam, com figurinos maravilhosos de Joana Lima Silva. O que Nietzsche chamou de coro satírico, que tem por função apontar os excessos que estão ocultos nas falas e na narrativa da cena, que expressa o sofrimento e os afetos do público, encontra nessa série-peça-metragem uma função subversiva que movimenta a plateia. Freud, ao tratar da função do coro traz sua dimensão hipócrita de se aliviar de sua culpa através da comiseração e lamentações pelo sofrimento do herói da cena trágica e assume para ele toda a culpa e sofrimento pelo ato cometido. Mas, no caso dessa peça, a gente se surpreende: no lugar da culpa está a responsabilidade, uma resposta; aquilo que é negado de nossa herança, dos traços africanos, sua tradição cultural e sua força de luta e de coragem, vem à luz como aquilo que não se pode apagar. Da boca do coro somos tomados por um cântico africano, vocalizado por Ana Paula Black e Damiana Inês, mulheres de vozes e semblantes belíssimos, que apresentam elementos recalcados no laço social e cuja ressonância sólida, mais intensa do poderíamos prever, encontra um alívio.

A arte por sua função de lidar com os horrores da existência permite que frente aos grandes impasses e problemas sociais insolúveis, o homem comum venha a se re situar, não mais como escravo da angustia, objeto do ódio. O surpreendente ensaio, nos tira do aparente conforto da ignorância e nos incita a expurgar o pior de nossa implicação frente ao trauma cotidiano que estamos vivemos, num processo de transgressão e de dignificação que toca o inconsciente de cada um, nos retira da paralisia e nos convida ao ato, à transformação.

Sobre a Cia do Inconsciente

Fundada por Antonio Quinet em 2007, a Cia. Inconsciente em Cena cria e apresenta seus espetáculos baseados em pesquisas sobre a relação do teatro com a psicanálise junto ao Mestrado e Doutorado de Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA, apoiado pela Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, com o objetivo de trazer ao grande público numa linguagem teatral as descobertas da psicanálise.

Em 13 anos de existência, a Cia. Inconsciente em Cena levou para os palcos temas como a tragédia de Édipo, a histeria, o funcionamento do Inconsciente e suas manifestações, o ato falho, o suicídio, a morte, o amor, as relações humanas assim como partes da história da psicanálise e de seu fundador Sigmund Freud em ação com seus pacientes.

A Cia. Inconsciente em Cena realiza regularmente Oficinas de Teatro e Psicanálise. Este ano de 2020 realizou duas Oficinas on line de agosto a outubro com o tema “A outra” em duas turmas cujos resultados serão divulgados em na internet: “A outra é mais forte?” e ” As outras de Dora”.

As  7 peças montadas pela Cia,  Hilda e Freud, Giostri Editora, 2016; Óidipous, filho de Laios (no prelo), Giostri Editora, 2015; X, Y e S – o teatro íntimo de Strindberg, Giostri Editora, 2014; O ATO – variações freudianas 2, Giostri Editora, 2013; O Sintoma – variações freudianas 1, Giostri Editora, 2013; ArTorquato, Editora 7Letras, 2006 e A lição de Charcot, Editora Jorge Zahar, 2005, encontram-se publicadas em livro. Dentre as montagens, algumas aulas da Cia foram encenadas entre os anos de 2015 a 2018 como, “Outra cena da Bela Açougueira”; “Enlaces e desenlaces da vida sexual”, “Édipo aos pés da Esfinge” e “Óidipous, filho de Laios – a história de Édipo Rei pelo avesso”.

FICHA TÉCNICA

Autor: Nelson Rodrigues

Direção: Antonio Quinet

Elenco: Ismael – Deo Garcez / Virgínia – Joana Lima Silva / Elias – Lucas Gouvêa / Ana Maria – Lucélia Pontes /

Hortência –  Anna Paula Black / Rezadeiras – Anna Paula Black e Damiana Inês / Coveiros –  Francisco Salgado e Val Perré / Primas: Cíntia Moreira, Jessica Moreira, Kátia Apostólico e Rebecca Loise / Tia – Sura Berditchevsky (Participação especial)

Direção Musical, Composição, Sound Designer e Operação de Áudio – Luciano Pozino

Figurinista –  Joana Lima Silva

Visagismo: Josef Chasilew

Assistente de direção, fotografia e visagismo – Jéssica Moreira

Supervisão de movimento – Lorena Amorelli

Transmissão – José Maurício Loures

Direção de fotografia, iluminação e edição dos vídeos – Mônica Machado

Vídeos: Antônio Quinet e banco de imagens

Fotos de divulgação – Flávio Colker

Assistente de iluminação – Pará

Identidade visual e Mídias sócias – Ivam Cruz

Assessoria de Imprensa- Duetto Comunicação – Alessandra Costa e Michelli Ferreira Toledo

Secretaria Executiva: Diana Aranha

Produção executiva – Damiana Inês e Liliana Mont Serrat

Produção: Atos e Divãs Editora e Produções LTDA e Bloco Pi Produções

Realização: Cia. Inconsciente em Cena

 

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