Precisamos falar sobre Felipe Neto

Em dezembro de 2020, a imprensa revelou mais uma ação do governo federal envolvendo monitoramento da liberdade de expressão: uma lista elaborada pela empresa BR+ Comunicação elencou os nomes de 81 personalidades, classificadas entre “detratores”, “neutros informativos” e “favoráveis”. Entre os “detratores” estava Felipe Neto, o influenciador digital com maior número de seguidores no Brasil. Mais recentemente, Felipe Neto foi alvo de queixa-crime, acusado de atentar contra a segurança nacional, após chamar o presidente Jair Bolsonaro de “genocida”.

O que motiva tamanha perseguição?

Embora sempre tenha mantido uma postura bastante crítica em relação a Jair Bolsonaro, Felipe Neto passou a adotar uma nova estratégia de posicionamento quando afirmou, em um tweet no início do ano passado, que deixaria de seguir celebridades que se recusassem a denunciar as ameaças antidemocráticas do governo. Essa atitude marcaria o fim da “passada de pano”, cobrando posicionamento de seus congêneres.

Num espaço conflagrado como as redes sociais, uma parte expressiva dos grandes artistas e influenciadores tenta transitar pelo corredor cada vez mais estreito da “neutralidade” e da alienação deliberada. Receia-se, sobretudo, perder seguidores e patrocinadores, uma vez que os temas políticos são, certamente, mais divisionistas que as amenidades do humor, das fofocas conjugais e das alegres fotos de viagens. Felipe Neto se expôs a esse risco quando decidiu firmar posição pública contra a onda autoritária que, pouco a pouco, tem testado os limites da nossa frágil democracia.

O influenciador já havia se posicionado com contundência quando enfrentou a censura determinada pelo ex-prefeito Marcelo Crivella a uma revista na última Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, cuja capa mostrava um beijo de dois personagens masculinos. Dessa vez, contudo, sua atitude representou um verdadeiro chamado a outras figuras públicas, que podem mobilizar multidões a partir das redes sociais.

Poucos dias após a viralização do tweet, a relevância política de Felipe Neto ganhou dimensão ainda maior com sua participação no tradicional programa de entrevistas Roda Viva. Ao longo da transmissão, o influenciador afirmou que havia revisto e hoje repudiava opiniões que defendera no passado e que reconhecia falar a partir de um lugar de privilégio. Além disso, mostrou-se crítico em relação à noção de meritocracia e chamou atenção para as profundas desigualdades sociais, étnicas e de gênero no Brasil.

Em muitos momentos, seu discurso coincidiu com pautas caras à esquerda. Estas mensagens políticas, vocalizadas por um interlocutor extremamente popular e carismático, alcançaram um público que, em grande parte, se recusaria a ouvir as mesmas afirmações caso viessem de canais ou porta-vozes da esquerda tradicional.

Saudado com elogios por boa parte do campo progressista, o posicionamento de Felipe Neto parece, entretanto, ter suscitado algum incômodo entre parcelas da esquerda, que receberam sua fala com um criticismo reticente, evocando suas declarações políticas passadas e apontando a “superficialidade” de seu discurso. No contexto de acelerado retrocesso político que o país enfrenta, tal postura revela um sintoma preocupante do ponto de vista estratégico.

A esquerda e a tábua moral do purismo e da coerência

Parte dos questionamentos à legitimidade da posição de Felipe Neto parece alimentar uma espécie de ressentimento correcional dessa esquerda, aparentemente presa à eterna necessidade de ajuste de contas. Ao recorrer a uma argumentação ad hominem ou ao denunciar falas do youtuber de anos atrás – sobretudo os ataques ao PT –, essa crítica acabou por se mostrar, em alguns momentos, atrelada a um moralismo purista, a um “fetiche pela coerência”.

É compreensível, do ponto de vista da reputação individual, que as pessoas queiram ter sempre razão. A armadilha narcisista das redes sociais parece ter amplificado as vozes críticas, inclusive dentro da própria esquerda. Mesmo diante de um penoso revés para seu campo, essa obsessão pela crítica parece antes desfrutar da satisfação de ter razão “desde o início” que lamentar as perdas e derrotas, sempre atribuídas, aliás, a erros da própria esquerda. O pessimismo preventivo converteu-se numa espécie de reserva de razão, de coerência, no debate interno da esquerda. O cético, afinal, nunca erra.

Valendo-se do humor para comparar os dois campos, Millôr Fernandes disse que a diferença entre esquerda e direita é que esta acredita em tudo que aprende, e aquela em tudo que ensina. O tom professoral, que é frequentemente atribuído ao discurso da esquerda, tem uma razão de ser: o pensamento contra hegemônico não pode apoiar-se no senso comum. Ao construir uma visão divergente sobre questões sociais e políticas, a esquerda não pode tomar o atalho das ideias simples e prontas. Contudo, a política é também o campo da passionalidade e da imaginação, e os acontecimentos recentes demonstram que, no tempo instantâneo das redes, os passos cuidadosos da razão são rapidamente amarados por duas ou três correntes de fake news, conforme argumenta Yascha Mounk.

A capacidade de comunicação de Felipe Neto e sua força persuasiva advêm não apenas de seu talento retórico, mas da autenticidade de sua fala. O influenciador deixa claro que, ao comentar as questões políticas, usa da liberdade de expressão para oferecer uma opinião pessoal, construída a partir de uma reflexão crítica e em constante evolução, sem adesões ou alinhamentos prévios. Esse posicionamento fornece-lhe uma credibilidade que os grupos e lideranças políticas convencionais têm perdido, sobretudo neste contexto de desgaste do establishment e de desconfiança da prática partidário-institucional da política.

A agenda comum: democracia e liberdade

“O que a normalização faz é transformar o que é moralmente extraordinário em ordinário. Isso nos torna capazes de tolerar o que antes era intolerável, fazendo parecer que é assim que as coisas sempre foram.” O argumento do filósofo Jason Stanley toca no cerne do novo posicionamento de Felipe Neto: não se pode considerar normal que um presidente expresse apoio a manifestantes que pedem intervenção militar, clamam por um novo AI-5, exigem o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF).

A mensagem é simples, mas urgente: é preciso impedir que a cultura política, a percepção social ou o simples senso de civilidade dos brasileiros sigam sendo contaminados pela retórica violenta e personalista do presidente, a fim de evitar que a instável e balbuciante democracia sofra uma deformação autoritária irreversível.

Essa agenda, como o próprio Felipe Neto ressaltou, é suprapartidária, na medida em que envolve o compromisso de preservar as instituições democráticas e os valores elementares do liberalismo político – direitos humanos, tolerância e liberdades básicas. Os sucessivos apelos à formação de uma frente ampla de resistência aos arroubos autoritários do governo reverberam o sentimento e a percepção política de que aqueles elementos, que lastreiam os consensos inscritos na Constituição de 1988, estão sob ameaça, e que essa ameaça, uma vez concretizada, tornará inviável qualquer projeto político que tenha a democracia por horizonte.

Se a defesa assumida por Felipe Neto quanto aos direitos fundamentais, e a sua visão crítica ao se pronunciar sobre as desigualdades merecem ser celebradas, por outro lado, é preciso reconhecer que a relevância da sua voz neste cenário é, também, sintoma de um problema mais amplo de representatividade. Afinal, como o próprio Felipe comentou no Roda Viva, cabe aos especialistas – intelectuais, militantes e membros de movimentos sociais – tomar a dianteira na elaboração de projetos e agendas.

É importante ter em vista que a construção de uma frente ampla de defesa da democracia se faz com organização, senso de coletividade e, principalmente, capacidade de articulação com todos que concordem com os valores da democracia e da liberdade. Nessa luta complexa e permanente, a presença de Felipe Neto não é apenas bem-vinda, mas extremamente necessária.

Leandro Gavião é doutor em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com estágio doutoral na Université Sorbonne Nouvelle e professor da Universidade Católica de Petrópolis (UCP).

Alexandre Arbex é doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Fonte: diplomatique

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