O furacão Biden: em 100 dias, o moderado virou presidente da transformação

Kamala Harris (à esq.), Biden e Nancy Pelosi: em discurso no Congresso, presidente reforçou os princípios de maior participação estatal do “Bidenomics”

Kamala Harris (à esq.), Biden e Nancy Pelosi: em discurso no Congresso, presidente reforçou os princípios de maior participação estatal do “Bidenomics” (Michael Reynolds/Pool/Reuters)

Se havia uma palavra resumindo as expectativas para o governo do presidente americano, Joe Biden, esta era moderação. Com três décadas de experiência no Senado e tendo papel de importante articulação como vice no governo Barack Obama, Biden era um político conhecido e previsível. O mesmo pode ser dito de seu gabinete, com nomes tradicionais em Washington — da secretária do Tesouro, Janet Yellen, saudada pelo mercado financeiro quando anunciada, ao secretário de Estado, Antony Blinken, e o “czar” do clima, John Kerry.

Antes de seus 100 dias de mandato, completados oficialmente nesta sexta-feira, 30, poucos apostariam no veterano democrata como sendo o presidente a inaugurar uma nova era no capitalismo americano. Mas para parte dos analistas mundo afora, é exatamente isso o que a gestão Biden vem fazendo — ou tentando.

“A expectativa durante a campanha era de que Biden seria um presidente de transição. Mas ele tem usado seu poder político para se tornar um presidente transformacional”, resume o cientista político William Galston, especialista em governança no instituto de pesquisa Brookings e colunista do jornal Wall Street Journal.

A marca dos 100 dias costuma ser relevante para dar o tom do que pode ser o resto do mandato em novos governos. Para os dois presidentes americanos recentes, foi especialmente cheia de eventos: Barack Obama lidou com a crise de 2008 e Donald Trump chegou tentando mudar tudo para fazer a América great again.

Esperava-se de Biden, é claro, muitas políticas desfazendo algumas das medidas do antecessor, e ações na pauta de costumes, tema caro à nova leva de jovens eleitores democratas. Era aguardado também um tom de seriedade no combate à pandemia, tentativas de conciliação com parte da oposição e alguns estímulos generosos para a retomada econômica. E só.

Mas em seus primeiros meses, Biden mostra que deseja ir além. Já anunciou até agora três pacotes de investimento trilionários. Na prática, só o primeiro deles era tido como certeza durante a campanha — o plano de 1,9 trilhão de dólares para recuperação imediata da economia, que incluiu cheques diretos de 1.400 dólares enviados a mais de 160 milhões de americanos, quase metade da população.

Os outros dois não dizem respeito só ao momento atual, mas a uma reconstrução profunda para os próximos dez, 20 ou 30 anos. Foram apresentados nas últimas semanas um plano de infraestrutura e geração de empregos (de 2,25 trilhões de dólares) e o recém-anunciado plano para as famílias (1,8 trilhão de dólares). Incluem investimentos como melhoria da infraestrutura e reestruturação da economia americana para um modelo mais produtivo, moderno e sustentável. No plano das famílias, estão ainda demandas históricas de alas mais progressistas do Partido Democrata, como opções de educação superior gratuita.

Apoiadores de Biden na Geórgia: presidente americano completou primeiros 100 dias nesta semana

Apoiadores de Biden na Geórgia: presidente americano completou primeiros 100 dias nesta semana (Evelyn Hockstein/Reuters)

Para arcar com tudo isso, anunciou que planeja um aumento de 21% para 28% da carga tributária das empresas. Também quer aumentar impostos pagos por americanos que ganhem mais de 400.000 dólares por ano. Do outro lado, no plano das famílias, propõe isenção de impostos a classes médias e baixas. “Wall Street não construiu este país”, disse Biden no mês passado para justificar seu plano tributário.

O receituário de aumento dos gastos públicos bancado por alta de impostos quase poderia ter saído dos sonhos do senador Bernie Sanders ou da deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, tidos como vozes mais radicais nos EUA. Tudo que os analistas do mercado, antes da eleição, diziam temer. Em outras circunstâncias, as ações de Biden vistas até agora seriam recebidas com desconfiança. Mas não é o caso desta vez. O S&P 500, que reúne as principais empresas dos EUA, atingiu nos primeiros 100 dias de Biden seu maior crescimento no começo da gestão de um novo presidente desde os anos 50.

Parte significativa dessa alta diz respeito ao que Arthur Mota, economista da Exame Invest Pro, chama de “tese da reabertura”. Sob Biden, os EUA conseguiram fazer chegar em tempo recorde aos braços dos americanos as vacinas contra a covid-19 que começaram a ser produzidas e financiadas ainda no governo Trump. A população vacinada com a primeira dose passou de 40%, e com a segunda, chega a 30%. “São faróis que sustentam a perspectiva de uma reabertura em breve, e setores específicos da bolsa se beneficiam desse movimento”, diz Mota.

Com os cheques de 1.400 dólares induzindo o consumo, o otimismo já é visto em diversos setores da economia. O produto interno bruto do primeiro trimestre, divulgado nesta quinta-feira, cresceu 6,4% na taxa anualizada — notícia considerada positiva pelo mercado mesmo com a base de comparação baixa, após recessão no ano passado. Enquanto isso, a geração de emprego em março foi a maior desde agosto.

A confiança reside na projeção de que, no segundo semestre, mais de 70% da população americana estará vacinada. A promessa de Biden era aplicar 100 milhões de doses nos primeiros 100 dias de mandato. No meio do caminho, dobrou a meta — alcançada com folga neste mês. “A despeito de qualquer pacote trilionário, sem o avanço da vacinação, seria tudo um pouco em vão”, argumenta Mota. “A contratação das doses foi feita na gestão passada, mas o crédito à equipe de Biden é ter conseguido cumprir o planejado e até surpreender no cronograma de vacinação.”

Assim, da pandemia aos impostos, a intensa lista de demandas internas têm roubado a cena: apesar de alguns acenos a países aliados no exterior, embates com a China e reuniões indiretas com o Irã, a principal medida de Biden na política externa só veio mesmo na questão climática, em meio à Cúpula do Clima realizada na semana passada com 40 líderes globais. “O que Biden parece estar fazendo neste momento é um movimento de olhar para as questões internas, como a economia e a pandemia, sem grandes movimentações na política externa”, diz o professor de Relações Internacionais Juliano Cortinhas, da Universidade de Brasília.

Mas há desafios novos também nesta seara, como no Afeganistão, de onde Biden antecipou a retirada das tropas americanas para setembro. Encerrar guerras no exterior tem sido uma promessa de vários governos, mas a realidade é mais complexa. “A retirada impõe um risco bastante grave de que o Oriente Médio possa novamente entrar em ebulição, o que pode trazer um desafio grande ao governo Biden”, diz Cortinhas.

Falar é fácilDentro dos Estados Unidos, não é pela economia ou política externa, mas exatamente pelo sucesso com a logística das vacinas, que Biden vem sendo reconhecido.

A frente melhor avaliada do presidente é a resposta à pandemia, com 65% de aprovação (ante 38% de Trump no fim do mandato), segundo pesquisa Reuters/Ipsos. A taxa é maior do que a aprovação geral do governo Biden, de 55%. É um número melhor do que o de Trump no mesmo período, mas pior do que quase todos os presidentes pós-Segunda Guerra.

O grande desafio no momento é na imigração, onde a aprovação beira os 40%, fatia baixa para um começo de mandato. Os EUA têm enfrentado uma nova onda migratória na pandemia, sobretudo com a deterioração econômica na América Central. As políticas na fronteira com o México são amplamente criticadas pela ala mais progressista do eleitorado por terem quase nenhuma mudança em comparação ao governo Trump.

Biden foi eleito com a promessa de “curar as feridas do país”, mas a tarefa será difícil. Pesquisa do Washington Post/ABC, por exemplo, mostrou que, dos 120 milhões de americanos que ainda não se vacinaram, metade não pretende fazê-lo — a maioria republicanos, sinal dos resquícios fortes da divisão partidária mesmo passada a eleição.

A polarização ficou explícita também na primeira batalha de Biden no Congresso. O estímulo de 1,9 trilhão de dólares foi aprovado por maioria simples, mas sem nenhum voto republicano no Senado. O governo seguirá tendo os mesmos problemas para aprovar os novos pacotes, e a tendência é que parte dos planos seja reduzido na barganha com os republicanos.

Outro prognóstico que assombra os democratas é o de perder a frágil maioria no Congresso nas eleições legislativas de meio de mandato do ano que vem — as chamadas midterms. É relativamente comum que o presidente eleito com maioria no Congresso a perca na sequência. Obama e Trump perderam a Câmara logo nas eleições seguintes depois de chegarem ao cargo. Obama também perdeu o Senado mais tarde, em 2015, tornando seu fim de mandato amplamente instável. Bill Clinton perdeu ambos em 1995 e governou como minoria por seis anos.

Biden em evento de comemoração aos 100 dias com o senador Raphael Warnock, da Geórgia, um dos que correm o risco de perder a cadeira no ano que vem: campanha antecipada

Biden em evento de comemoração aos 100 dias com o senador Raphael Warnock, da Geórgia, um dos que correm o risco de perder a cadeira no ano que vem: campanha antecipada (Evelyn Hockstein/Reuters)

Pesquisas até agora mostram que Biden, apesar da aprovação relativamente positiva, pode perder a maioria até mesmo na Câmara (e com ela o importante cargo de presidente da Casa, hoje de Nancy Pelosi). Este é parte do motivo pelo qual o novo governo tem se esforçado para tirar do papel as promessas de campanha logo no começo do mandato.

“Passados 100 dias, nós agora sabemos o que Biden deseja fazer. Mas se o Congresso vai deixá-lo, é outra história”, diz Galston, da Brookings.

Fonte: exame

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