Medo, fakenews e os sujeitos neoliberais que se autodestroem pensando se proteger, por Adriana Macedo

Medo, fakenews e os sujeitos neoliberais que se autodestroem pensando se proteger, por Adriana Macedo

Arte na Rua – Frabianco

Observamos que no neoliberalismo, ponto alto da exploração contemporânea, a psicopolítica se tornou uma arma central do sistema no controle e direcionamento dos afetos e das ações dos indivíduos.

O movimento bolsonarista: o processo de destruição do outro e de si

Parte 5 – Medo, fakenews e os sujeitos neoliberais que se autodestroem pensando se proteger

por Adriana Macedo

Em textos anteriores desta série, abordamos a necessidade de construção do inimigo e o imperativo de calar vozes dissonantes contra-hegemônicas para que o sistema de dominação perverso não seja questionado, para que verdades não sejam ditas. Observamos que no neoliberalismo, ponto alto da exploração contemporânea, a psicopolítica se tornou uma arma central do sistema no controle e direcionamento dos afetos e das ações dos indivíduos.

Produtos das armas da psicopolítica, os sujeitos neoliberais defendem agendas contrárias a seus interesses, dado que não colocam em primeiro plano o fato de que a produção de seu sofrimento decorre das dinâmicas inerentes ao sistema capitalista. Ao mesmo tempo, se recusam a ouvir os “segredos” revelados pela sociedade civil organizada e reagem como se o seu eu estivesse ameaçado por aqueles que desenterram tais segredos. Assim, escolhem um governo autoritário que avança nas pautas que os vulnerabilizam ainda mais e que ataca frontalmente as vozes incômodas. No Brasil, parte desses eleitores integra uma massa bolsonarista que defende seu líder como a si mesma, em processo de autodefesa – e autodestruição – contra todas as vozes que eles se recusam a ouvir.

Este quinto artigo da série discorre sobre o papel das fakenews na interrupção de qualquer forma de troca intersubjetiva entre as vozes da sociedade e na formação da massa bolsonarista. A potência do dominador está ligada à imagem positivada de si e seu poder se dá na sujeição do outro. Sua posição de “superioridade” é sustentada na ideia do inimigo, uma ameaça a ser silenciada e também eliminada, construída a partir da mobilização do medo. Vários dispositivos do sistema contribuem para que o discurso dominante impere e as vozes dissonantes sejam silenciadas.

As vozes dissonantes dialogam num processo onde as questões precisam ser elaboradas e justificadas, exatamente por serem contrárias ao pensamento dominante. Essa “ofensiva” desperta mecanismos de defesa do ego. As trocas e o contato com novas ideias, perspectivas e signos podem gerar deslocamentos de enquadramento1, elaboração das ideias circulantes, novos afetos1 e representações sociais2, como desenvolvemos no terceiro artigo desta série. No Brasil, e alhures, tais vozes estavam ampliando seu alcance com o advento das redes sociais e das políticas afirmativas. Entretanto, a reação a essa expansão não tardou, qualificando essas vozes como ameaça. A apresentação daquelas novas perspectivas como narrativas de um inimigo, ameaçadoras e perigosas, interrompe o processo dialógico e aumenta a resistência social ao outro, fomentando movimentos autoritários.

Apesar de narrativas que perpetuam a dominação como instaurada no âmago de todos, a potência do dominador não é necessariamente plena. Privilégios de raça, classe, gênero, orientação sexual podem se combinar de diversas maneiras, e estão entrelaçados dentro do sistema capitalista. Na interação com representações sociais não hegemônicas, haverá mais abertura inicial para uma questão do que para outra, dependendo dos grupos e dos espaços onde os indivíduos circulam. Todavia, o processo de desconstrução e a capacidade de intercambiar posições – isto é, olhar a questão da perspectiva do outro e se olhar da perspectiva do outro –, se interrompe na medida em que o outro é percebido como ameaça à existência do eu. Nessas condições, predomina o afeto do medo e esse outro não deve ser ouvido.

As práticas da extrema direita contemporânea e, no Brasil, do bolsonarismo incluem a disseminação em massa de informações falsas por grupos em rede exatamente na linha de construção e ataque ao inimigo e de defesa dos líderes reacionários como vítimas desses inimigos, Bolsonaro, por exemplo. É sob essa atmosfera de medo, insegurança e autodefesa que muitas instituições tradicionais da ordem burguesa vêm perdendo espaço por não se alinharem, ao menos integralmente, aos signos gerados nesses grupos3.

Embora se possa comparar o fenômeno contemporâneo das fakenews nas redes sociais com a propaganda fascista e mesmo com as mentiras e omissões sempre produzidas pela mídia hegemônica ao longo do século XX, o big data é uma nova arma na construção do outro e no silenciamento das vozes que ameaçam o sistema de dominação. O processamento do big data permite direcionar comportamentos de forma potente4, como ficou evidente na última eleição presidencial5 no Brasil e agora em plena pandemia6.

Imaginemos uma enorme gama de pessoas, influenciadas numa mesma direção, mas com argumentos diferentes, direcionados sob medida às suas preferências individuais, à sua personalidade e lógica argumentativa7. A resultante seria um conjunto de ações na esfera pública a favor dos interesses dos financiadores do big data e do grande capital, ações assentadas em informações fraudulentas sedimentadas nesse processo de manipulação dos pensamentos e da vontade.

A família Bolsonaro é uma das investigadas por suspeita de uso de fakenews no processo eleitoral que reelegeu não só os homens da família, como outros tantos apoiadores, levando ao Governo do Rio de Janeiro e ao de Minas Gerais, para citar apenas dois exemplos, figuras desconhecidas da grande maioria dos cidadãos. Dentre essas fakenews, há distorções do pensamento de grandes intelectuais anticapitalistas, em especial aqueles mais radicais na exposição das entranhas do sistema, como Karl Marx e Antonio Gramsci. As correntes de Whatsapp conjugam a narrativa distorcida desejada com imagens de morte e violências de diversas ordens. Tal narrativa, associada à ideia do risco, gera, além da difamação de alvos específicos, signos diante dos quais se deve sentir medo. Recorte de falas descontextualizadas e montagens também são utilizadas. Os recursos de computação gráfica já permitem recriar a imagem de uma pessoa e seus movimentos faciais emitindo determinadas frases.  Quem conseguirá desmentir algo que “foi visto” por milhares de pessoas? A que ponto seremos manipulados?

A construção das informações falsas sob medida para diferentes perfis de pessoas e sua disseminação em grande escala, abordadas no primeiro artigo desta série, potencializam processos de transferência e mecanismos de defesa como a recusa e a negação, tratados no terceiro artigo. A identificação entre os sujeitos a partir dessa convergência artificialmente criada favorece a adesão a grupos reacionários, tema que foi objeto do quarto texto da série. Uma técnica central na produção das fakenews é a produção do medo.

Vladimir Safatle8 afirma que o medo é o afeto central que domina a sociedade contemporânea. Tal criação fantasmagórica produz a desqualificação de tudo que ameaça os interesses capitalistas, sustentando um estado de medo permanente. Adicionalmente, o medo é continuamente ampliado pela própria insegurança gerada pela perda de direitos e pelo aumento da vulnerabilidade dos sujeitos no neoliberalismo. Contudo, as dinâmicas do sistema e o próprio sistema são poupados de críticas nesse duplo movimento: de defesa da ideologia capitalista e da desqualificação, logo do apagamento, das vozes dissonantes. O sujeito neoliberal entra em processo de autodestruição ao negar a verdade e apoiar a sua própria vulnerabilização social, num processo que denominamos vampirização, como argumentamos no terceiro artigo desta série.

Para Safatle, o medo é um afeto que paralisa. Individualmente, os sujeitos temem. São expressões desse afeto a figura da “mamadeira de piroca”, da “ditadura do politicamente correto”, dentre outros signos construídos com força simbólica para produzir medo. Por outro lado, na massa, os indivíduos se sentem potentes, a ponto de termos hoje uma parcela minoritária da sociedade, altamente violenta em seus ataques, tensionando pelo rompimento da ordem constitucional.

Os signos mobilizados para criar o outro como inimigo não têm significado literal, eles defendem uma ideia. As pessoas podem chegar à conclusão lógica de que não existe uma mamadeira em formato peniano, mas, isso não importa. Essa imagem representa uma ameaça que para elas é real. Os sujeitos estão se sentindo ameaçados em seus valores cristãos, morais e temem perder suas posses. No mesmo sentido, o termo “ditadura do politicamente correto” evita que o sujeito tenha que lidar com as verdades enunciadas pelo outro. Os processos de negação e recusa se dão a todo momento, desmentindo acusações, mudando de assunto, enaltecendo a si e projetando no outro o que há de pior em si mesmo. Contudo, a violência dessa operação não pôde ser por muito tempo disfarçada, e ficou explícita mais recentemente nas pautas antidemocráticas pedindo golpe militar e volta do Ato Institucional número 5. Como não há apoio amplo a tais pautas, elas passam a ser expostas, de forma cínica, como o seu contrário, unindo conceitos que se repelem. Assim, a ditadura é reclamada como intervenção democrática.

As ideias do perigo que o outro representa e a imagem de si como cidadão de bem favorecem a atribuição de credibilidade às fakenews e a desqualificação de qualquer narrativa diferente, cuja expressão máxima é a negação da ciência e a rotulação dos especialistas que divergem das mensagens fraudulentas de comunistas/esquerdistas. Nesse cenário, há uma parcela da sociedade angustiada, sem saber em que informações confiar. Essa crise de confiança talvez tenha relação com o comportamento autodestrutivo de vários setores da sociedade durante a pandemia.

As estruturas hierárquicas se abalam com a voz do outro e o sistema se defende construindo signos que desacreditam esse outro e que fomentam a ideia do outro como ameaça, como interessado na destruição do eu, não só na destruição simbólica, mas também física. Nos estudos sobre as reações biológicas de animais ao medo, inclusive o ser humano, luta, imobilidade e fuga são descritas como as principais. Essas estratégias em seres bem adaptados ao ambiente são usadas de acordo com a conjuntura, buscando a melhor forma de sobrevivência.

As redes sociais podem tanto ampliar as vozes dos silenciados, como as dos reacionários, permitindo a identificação entre pessoas com afinidades eletivas e a sensação de estarem em maior número. Tal sensação é reforçada por algoritmos que retornam um número bem maior de mensagens alinhadas com as interações do receptor. Tal direcionamento dificulta a chegada de narrativas anti-hegemônicas a pessoas afastadas de debates dessa natureza. Os algoritmos limitam o alcance de ideias contra-hegemônicas também pela difamação e desqualificação dos grupos de onde essas vozes saem. Assim, uma minoria numérica da sociedade defende incondicionalmente Bolsonaro, mas se retroalimenta, reforçando a sensação de potência dessa massa constituída numa espiral de medo fabricado. Todos os sujeitos, dentro ou fora da bolha, são afetados nesse processo.

Os cinco primeiros artigos desta série tiveram por finalidade compreender algumas bases da ascensão da extrema direita, em especial do movimento bolsonarista no Brasil, como uma resposta ao movimento reacionário iniciado “de cima”, pelas instituições da ordem, que acionaram sentimentos de frustração e desilusão e, no processo, desencadearam a aversão às instituições burguesas e a perda da credibilidade dessas. Com o objetivo de impedir o retorno do Partido dos Trabalhadores à presidência, pôs-se em marcha um processo intenso de elaboração e divulgação em massa de informações fraudulentas, criando a figura do outro ameaçador, perigoso e destruidor, fomentando o medo e favorecendo a identificação entre pessoas a partir desses afetos, resultando na formação de massas reacionárias ao redor da figura do líder Bolsonaro.

O peso dado às informações vindas das instituições tradicionais da ordem capitalista, dado o seu descrédito, tem sido menor que aquele dado às informações que circulam no interior dos grupos. Ao mesmo tempo, a criação de signos potentes a serem temidos silenciam as vozes dissonantes. Nesse processo, toda voz contrária à que circula no interior dos grupos é rotulada como inimiga através de signos específicos vinculados à esquerda, esvaziando de sentido muitos termos e categorias analíticas e dando a eles uma dimensão fantasmagórica. Nessa conjuntura, observa-se a ausência de capacidade de direcionar o país ao controle da pandemia de Covid‑19, resultando em taxas de contaminação e mortes que chocam o mundo, apesar da subnotificação pela insuficiência de testagens, e no favorecimento do surgimento de novas variantes do vírus. Instituições da ordem burguesa (Organização Mundial da Saúde, cientistas especialistas em epidemiologia respiratórias, Instituições de Pesquisa respeitadas no País) têm sido sistematicamente desacreditadas por muitos integrantes de grupos bolsonaristas e parte da população em geral fica confusa em meio a tantas informações contraditórias. Há nesse processo um mecanismo de transferência psíquica, descrito no segundo artigo, onde a ação do líder a favor da morte se equaciona projetando a culpa pela pandemia em outros atores, nos inimigos. É a implementação de um Estado suicidário, como nomeia Vladimir Safatle9.

O próximo e último artigo da série buscará resgatar as principais questões debatidas e propor alguns aspectos a serem considerados na disputa pela saída dessa crise, considerando a centralidade dos afetos na psicopolítica e a necessidade de relações substantivas que não se realizam no capitalismo.

1BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

2JODELET, Denise. O movimento de retorno ao sujeito e a abordagem das representações sociais. Sociedade e Estado. v. 24, n. 3, p. 679-712, 2009.

3SAKAMOTO, Leonardo. Pesquisa em ato aponta que bolsonarismo consolida sua identidade política. Blog do Sakamoto. 2019. Disponível em <https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/05/27/pesquisa-em-ato-aponta-que-bolsonarismo-consolida-sua-identidade-politica/>.

4HAN, Byung-Chul. Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Editora ÂYINÉ. 2018. Tradução de Maurício Liesen.

5SIMÕES, Mariana. Grupos pró-Bolsonaro no WhatsApp orquestram fake news e ataques pessoais na internet, diz pesquisa. Pública, 2018. Disponível em: < https://apublica.org/2018/10/grupos-pro-bolsonaro-no-whatsapp-orquestram-fake-news-e-ataques-pessoais-na-internet-diz-pesquisa/>.

6SCHMITT, Gustavo. 2020. Disponível em: <https://epoca.globo.com/sociedade/desrespeito-ao-isolamento-social-maior-em-areas-onde-bolsonaro-tem-mais-apoio-diz-estudo-24391966>.

7Privacidade Hackeada. Direção de Jehane Noujaim e Karim Amer. Netflix. 2019.

8SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica editora. 2016.

9SAFATLE, Vladimir. Bem-vindo-ao-estado-suicidário. Jornal GGN, 2020. Disponível em:< https://jornalggn.com.br/blog/doney/bem-vindo-ao-estado-suicidario-por-vladimir-safatle-n-1-edicoes/>.

Adriana Macedo é Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, Pesquisadora do Laboratório Interdisciplinar de Extensão e Pesquisa Social (LIEPS/IFRJ) e do Núcleo de Estudos do Movimento Humano (NEMOH/UFRJ). É especialista em Biomecânica, Mestre e Doutora em Engenharia Biomédica (COPPE/UFRJ) e graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

Os quatro primeiros foram publicados no GGN nos seguintes links:
Parte 1 – O movimento bolsonarista: o neoliberalismo e a defesa do autoritarismo, por Adriana Macedo | GGN (jornalggn.com.br)
Parte 2 – O movimento bolsonarista: o processo de destruição do outro e de si II, por Adriana Macedo | GGN (jornalggn.com.br)
Parte 3 – O sujeito neoliberal, a vulnerabilização de si e o autoritarismo, por Adriana Macedo | GGN (jornalggn.com.br)
Parte 4 – A figura do líder e o tiro que saiu pela culatra na política brasileira, por Adriana Macedo – GGN (jornalggn.com.br)

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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