Mais que um símbolo

A mulher forte invadiu de vez a cultura mainstream: com olhos faiscantes e postura desafiadora, ela tem um recado para dar. Munida de espada na mão ou com poder correndo nas veias, a nova protagonista não tem medo de nada.

Talvez devesse ter: de si.

Longe de sentir nostalgia do papel da mulher dos anos 50 vertido em silenciosa submissão, esta escritora é uma entusiasta feminista que vibra por personagens femininos que encarnam valores como força e coragem em vez de apenas doçura e delicadeza.

Mas o risco está em inverter a chave, trocando seis por meia dúzia, criando uma cartilha de como nós agora deveríamos espelhar nosso comportamento: chorar sozinha, não pedir ajuda e vestir uma capa.

Resta saber se esta capa abriga um símbolo ou um ser humano.

Nos IGs para mulheres promovendo autoestima, a mensagem é clara: autossuficiência é o nosso lema. Nosso superpoder. Com uma taxa abrasiva de feminicídios e mães solteiras no Brasil, ainda vivemos uma realidade em que muitas não têm escolha a não ser encarar o mundo sozinhas.

Vi minha mãe (solteira) conciliar o trabalho fora e a filha prematura. Já precisou me deixar com o porteiro para comprar remédio, abdicou de noites de sono e seu bem-estar por mim. Minha mãe é uma entre milhares. Na cultura, a mulher forte soa como uma restituição, nosso grito de esperança.

Para ser tudo isso, ela ainda pode ser humana?

Esquecemos que por trás da mulher forte, há crise e vulnerabilidade. Momentos cortados de telas e páginas para não “enfraquecer” nossas personagens. É este o nosso legado agora? Calar emoções, criando símbolos de invencibilidade para provar o quê? Que não precisamos de apoio?

Arriscamos cair nas armadilhas do masculino ferido: a esterilidade emocional que confunde força com ausência de fraqueza. O que ocorre quando esses ídolos caem? Quebram.

Fortes e sozinhos, como escolheram.

Escolhamos melhor.

Fonte: midianinja

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