Faltam doses da Coronavac para a segunda imunização em 11 capitais e 1.035 municípios

Faltam doses da Coronavac para a segunda imunização em 11 capitais e 1.035 municípios

Gestores públicos poderão ser punidos por improbidade administrativa em virtude do atraso na aplicação da vacina contra covid-19

Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

Em 11 capitais e 1.035 municípios de 20 estados brasileiros faltam vacinas para a aplicação da segunda dose da Coronavac, o principal imunizante em uso no país pelo Programa Nacional Imunização (PNI) contra a covid-19, gerido pelo Ministério da Saúde.

A única entre as 11 capitais onde falta vacinas para a segunda aplicação da Coronavac é Porto Alegre. A capital gaúcha retomou a vacinação com a primeira dose da Astrazeneca e deverá receber mais uma remessa da Pfizer na próxima segunda-feira, 10. Um lote de 243,4 mil doses da Astrazeneca recebido pelo Rio Grande do Sul na quinta-feira, 6, deverá ser reservado para a segunda dose com o imunizante da vacina da Oxford.

Nas demais, não há vacinas para a segunda imunização com Coronavac e nem para a continuidade da primeira vacinação: Belo Horizonte e Porto Alegre. Tanto para a primeira quanto para a segunda doses, não há vacinas em Aracaju, Campo Grande, Maceió, Natal, Porto Velho, Salvador, Recife e Teresina.

Minas Gerais é um dos estados mais atingidos pela falta de doses. A vacinação estava suspensa até esta sexta-feira, 7, em 830 dos 853 municípios mineiros e, na capital, Belo Horizonte, o prazo máximo de 28 dias para a aplicação da segunda dose da Coronavac expirou para mais de 80 mil pessoas. No estado de São Paulo, 25 municípios suspenderam as vacinas.

Núcleo de Imunizações da Vigilância em Saúde da SMS no bairro Camaquã, em Porto Alegre

Foto: Cristine Rochol/PMPA

Na Região Sul, 50% das prefeituras informaram à Confederação Nacional de Municípios (CNM) que não dispõem do imunizante para completar a vacinação, um problema que atinge um terço das cidades em todo o território nacional.

No Rio Grande do Sul, faltam 263.870 doses da Coronavac para a segunda dose, o que está atrasando a conclusão do ciclo de imunização dos já vacinados com a primeira dose.

O intervalo recomendado pelo Butantan é entre 14 e 28 dias após a primeira imunização. No caso da AstraZeneca/Oxford, a Fundação Osvaldo Cruz, que produz a vacina no Brasil, recomenda um intervalo de três meses entre as duas doses.

Ao suspender a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) que autorizou o governo estadual a alterar a ordem de vacinação de grupos prioritários, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF) afirmou na segunda-feira, 3, que os gestores públicos poderão ser punidos por improbidade administrativa em virtude do atraso na aplicação da vacina contra covid-19.

A importância da segunda dose

Hallal: “Todo mundo tem que tomar a segunda dose mesmo que tenha passado o prazo”

Foto: Adufpel/ Divulgação

“Em termos macro é muito ruim a falta de vacinas para a segunda dose. Representa uma desorganização e falta de planejamento da campanha. A gente já sabia que tinha carência de doses no Brasil, parece que os números eram artificialmente mostrados para que parecessem mais altos do que eram e se apressou o uso das doses que eram para terem sido guardadas”, avalia o epidemiologista e professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pedro Hallal.

De acordo com o cientista, a segunda dose é importante para todas as vacinas que exigem segunda dose e não especificamente para Coronavac. “Todos os protocolos que testaram usaram duas doses. A segunda dose é obrigatória. Em alguns casos, há estudos que sugerem que uma única dose possa ter alguma proteção, mas a recomendação é de duas doses para ter a proteção completa. Do contrário pode ser uma proteção superficial”, alerta Hallal, que coordena a pesquisa Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no RS (Epicovid19) do Centro de Pesquisas Epidemiológicas (CPE/UFPel).

O epidemiologista explica que não há prejuízo para a efetividade do imunizante se a segunda dose for administrada até 15 depois do prazo estipulado pela farmacêutica. “Se a pessoa deixar de tomar de 21 a 28 dias, mas passar alguns dias não tem tanto problema assim. Claro, exceto se deixar passar 20 dias. Até duas semanas não tem problema nenhum”, esclarece.

Segundo ele, a segunda dose é obrigatória, mesmo fora do prazo. “Todo mundo tem que tomar a segunda dose mesmo que tenha passado o prazo. É melhor tomar um pouquinho depois do prazo do que não tomar. A garantia da imunização é claro que a gente tem 100% de certeza no caso de quem cumpriu o período estabelecido, mas alguns estudos já evidenciam que mesmo se não for exatamente o período estabelecido ainda tem efeito. Não precisa refazer todo o processo de maneira alguma, mas se o paciente não tomar a segunda dose ele perde parte da proteção”, ressalta Pedro Hallal.

Trapalhadas do Ministério da Saúde

Laboratório da chinesa Sinovac, detentora da pantente da Coronavac, que é produzida no Brasil pelo Butantan

Kevin Frayer/Getty Images

A escassez de vacinas, uma das muitas crises geradas pela má gestão do PNI, remonta ao início deste ano, quando o ministério enviou sinais trocados aos gestores estaduais sobre a logística da imunização.

Informações contraditórias sobre a reserva de doses se somaram ao cenário de incertezas em relação à pandemia alimentado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus ministros, com contrainformações sobre eficácia das vacinas, ataques à ciência, imposição de medicamentos nocivos e sem eficácia contra a covid-19, bombardeios diários com fake news.

Em fevereiro, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, orientou os gestores municipais para que usassem o estoque de vacinas para a primeira imunização, mas voltou atrás depois de alguns dias, recomendando a reserva de vacinas para a segunda dose.

Em março, o Ministério da Saúde voltou a afirmar que todas as vacinas armazenadas poderiam ser utilizadas. Em abril, o atual ministro Marcelo Queiroga, que substituiu Pazuello na pasta, afirmou em depoimento no Senado que a orientação mudara e que os estados deveriam armazenar metade do estoque para a dose complementar.

Resultado: os estados e municípios gastaram seus estoques de vacinas e o ministério reduziu sistematicamente a aquisição e o fornecimento de imunizantes.

Em depoimento à CPI da Covid no Senado, na quinta-feira, 5, Queiroga forneceu números contraditórios aos senadores sobre o número de doses de vacinas efetivamente contratadas pelo ministério. Primeiro ele afirmou que seriam 562,9 milhões, mas alertado por um assessor, corrigiu a previsão para 430 milhões de doses.

Baixo desempenho na vacinação

A vacina produzida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan foi aplicada em 75% dos cerca de 51,5 milhões de brasileiros já imunizados – dos quais 51,55% receberam a primeira e 8,19% a segunda dose.

De acordo com as informações das secretarias estaduais da saúde, até a quinta-feira, 6, o país havia vacinado 51,5 milhões com a Coronavac e a Astrazeneca, sendo 34,2 milhões com a primeira dose e 17,3 com a segunda.

A cobertura vacinal do Brasil na pandemia é uma das mais ineficientes do mundo, ao contrário do que afirma o Ministério da Saúde.

Com 24,35% da população imunizada com ao menos uma dose, o país não é o quarto, mas o 56º colocado no ranking global da vacinação contra a covid-19, com uma média de 23,51 doses aplicadas a cada 100 mil habitantes. O líder é o Reino Unido, com 74,09 por 100 mil habitantes.

Como funcionam as vacinas

CORONAVAC – Com tecnologia desenvolvida a partir da manipulação em laboratório de células humanas infectadas com Sars-Cov-2, o vírus da covid-19, a Coronavac é produzida com fragmentos inativados do vírus incapazes de se reproduzir. Após receber a primeira dose, o sistema imunológico começa a produzir anticorpos para combater o Sars-Cov-2. A proteção contra a forma sintomática da covid-19 aumenta de 16% na primeira para 67% com a aplicação da segunda dose.

ASTRAZENECA – Utiliza a tecnologia vetor viral recombinante, que usa um adenovírus incapaz de causar doenças, que após a aplicação incentiva a produção da proteína do coronavírus. Essa proteína é identificada como uma ameaça ao organismo e destruída pelo sistema imune – que entrará em ação em caso de infecção real pelo Sars-Cov-2. Testes clínicos da Oxford apontam até 70% de eficácia nos primeiros três meses após a primeira dose e manutenção desse percentual após a segunda dose, recomendada após 12 semanas.

Falta de insumos e ataques à China

Foto: Instituto Butantan/ Divulgação

Foto: Instituto Butantan/ Divulgação

Na quinta-feira, 6, o Butantan suspendeu o envase da CoronaVac por conta da falta de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), a matéria-prima do imunizante. Essa é a segunda parada na produção de vacinas por atrasos no recebimento de IFA. O diretor do instituto, Dimas Covas, atribuiu o atraso dos insumos importados da China à “falta de alinhamento” do governo federal.

Na quarta-feira, 5, Bolsonaro insinuou que a China teria criado o vírus em laboratório como parte de uma “guerra química”. A acusação, além de não ter qualquer fundamento, contraria a Organização Mundial de Saúde (OMS), que aponta que o vírus provavelmente tem origem animal.

Na semana anterior, o ministro da Economia, Paulo Guedes, havia afirmado que os chineses “inventaram” o coronavírus, reforçando uma prática de espalhar mentiras e teorias conspiratórias que tem sido recorrente por ministros e filhos de Bolsonaro e pelo próprio presidente.

“O insumo da principal vacina que vai no braço dos brasileiros vem da China”, lembrou Covas, ao afirmar que o governo criou uma crise “por sucessivas declarações desastrosas do ministro da economia, Paulo Guedes, e agora do presidente da república, Jair Bolsonaro”.

O Butantan informou que solicitou à Sinovac 6 mil litros do IFA para produzir cerca de 10 milhões de doses que deveriam ter sido enviadas para os estados em abril. Dois mil litros do insumo devem chegar nos próximos dias.

Desde janeiro, o instituto entregou 42,05 milhões de doses da vacina ao PNI. Uma remessa de 3 mil litros do IFA em abril foi processada e as doses começam a ser liberadas nesta sexta-feira, 7, para completar as 46 milhões de doses do primeiro contrato firmado com o Ministério da Saúde, informou Covas em uma coletiva.

Segundo ele, é esperado mais um carregamento com 3 mil litros do insumo. “O Butantan trabalha para entregar mais 54 milhões de doses para a vacinação dos brasileiros até o dia 30 de agosto, totalizando 100 milhões de unidades contratadas até agora para a campanha contra a covid-19”, afirmou.

Fonte: extraclasse

Leia Mais:

vacina já - sisma-mt

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *