Em meio à pandemia de Covid-19, mundo bate recorde de 80 milhões de refugiados e deslocados

Mulher carrega pertences após incêndio em campo de migrantes e refugiados na ilha grega de Lesbos, em setembro – Elias Marcou – 9.set.20/Reuters

O número de pessoas forçadas a deixar suas casas devido a perseguições, conflitos e violações de direitos humanos é estimado em mais de 80 milhões, de acordo com relatório divulgado nesta quarta-feira (9) pelo Acnur, agência de refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU). Desse total, pelo menos 30 milhões são crianças e adolescentes.

Apesar de ser um recorde na série histórica, o número é resultado de um levantamento prévio e pode ser ainda maior quando todos os dados deste ano forem contabilizados. O total de 79,5 milhões apurados no início do ano pelo Acnur inclui 45,7 milhões de pessoas deslocadas internamente, 29,6 milhões de refugiados e outros deslocados à força para fora de seus países e 4,2 milhões de requerentes de asilo.

Segundo o Acnur, o ano de 2020 foi particularmente mais difícil para os refugiados, devido aos conflitos novos e pré-existentes e à pandemia de coronavírus. Em março, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu aos líderes mundiais um cessar-fogo global enquanto o mundo lutava contra a Covid-19, mas o apelo foi ignorado por diversos países.

“Com o deslocamento forçado dobrando na última década, a comunidade internacional está falhando em salvaguardar a paz”, disse Filippo Grandi, chefe do Acnur. “Estamos ultrapassando outro marco sombrio que continuará a crescer, a menos que os líderes mundiais parem as guerras.”

De acordo com o relatório da ONU, a Covid-19 tornou-se um elemento agravante para a situação das pessoas forçadas a deixarem seus países. “O vírus interrompeu todos os aspectos da vida humana e agravou severamente os desafios existentes para os deslocados à força e as pessoas sem pátria”, diz o texto.

Os dados do Acnur mostram que as medidas adotadas para combater a disseminação do coronavírus dificultaram a assistência segura aos refugiados. Em abril, quando grande parte dos países viveu o pico da pandemia, 168 nações fecharam total ou parcialmente suas fronteiras, dentre os quais 90 não abriram exceções para requerentes de asilo.

A entidade afirma que negociou com 111 países para encontrar soluções pragmáticas que tornassem seus sistemas de acolhimento operacionais mesmo em meio à pandemia.

Apesar disso, os novos pedidos de asilo diminuíram um terço em comparação com o mesmo período em 2019 e, segundo o Acnur, “os fatores subjacentes que levam a conflitos em todo o mundo permanecem sem solução”.

O órgão da ONU também afirma que apenas 822,6 mil deslocados conseguiram voltar para casa, dos quais a maioria —635 mil— era de pessoas que haviam permanecido em seus próprios países. Assim, o retorno de refugiados caiu 22% em comparação com o ano passado.

Mais de dois terços dos refugiados saíram de cinco países: Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Mianmar, Já as cinco nações que mais receberam os refugiados são Turquia, Colômbia, Paquistão, Uganda e Alemanha.

Alemães defendem abrigo a refugiados
Alemães defendem abrigo a refugiados

Na semana passada, a ONU divulgou outro relatório, o Panorama Humanitário Mundial, que aponta que 235 milhões de pessoas —1 a cada 33 no planeta— precisarão de algum tipo de ajuda humanitária em 2021.

Para atendê-las, a ONU precisa atingir a marca de US$ 35 bilhões (R$ 185 bilhões) em doações. A meta é mais que o dobro dos recordes US$ 17 bilhões (R$ 89,8 bilhões) que a entidade recebeu dos países-membros em 2020, quando o objetivo era angariar US$ 29 bilhões (R$ 153,2 bilhões).

O relatório apresenta um cenário sombrio das necessidades provocadas por conflitos, deslocamentos, desastres naturais e pela mudança climática, mas atribui à Covid-19 a maior responsabilidade pelo aumento da demanda humanitária.

A pandemia, segundo a ONU, afetou de modo desproporcional as populações que “já vivem no fio da navalha”, e o panorama apresentado é “a perspectiva mais desoladora e sombria sobre a necessidade humanitária” já anunciada pela entidade.

Por: Folha

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