Em debate virtual, cientistas são unânimes: ‘Bolsonaro é aliado da covid’

Por Gabriel Valery, da RBA

O Brasil enfrenta o período mais grave do surto de covid-19 desde o início da pandemia, decretado em março de 2020, enquanto o presidente Jair Bolsonaro desdenha da maior crise sanitária da humanidade em mais de um século. Mais que isso, trabalha para sabotar o controle da pandemia e evitar a morte de centenas de milhares de brasileiros.

A intensidade do negacionismo no Brasil é um caso único no mundo. “O momento é de extrema gravidade. Nunca tivemos uma coordenação nacional adequada. Temos uma pessoa que é sócia do coronavírus neste posto principal. Isso cria uma dificuldade para os coordenadores, prefeitos, para o SUS. Seja pelo discurso e práticas que nos impede de termos eficiência no controle da pandemia”, afirma o pneumologista da Universidade de São Paulo (USP) Ubiratan de Paula Santos.

Ubiratan abriu um debate na noite de ontem (5) intitulado “Situação atual da Pandemia no Brasil – como cessar a mortalidade pela COVID-19 e ativar a economia”. O encontro foi promovido pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp). Além do pneumologista, participaram acadêmicos, médicos e representantes do poder público, entre eles o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), e o prefeito de Araraquara (SP), Edinho Silva (PT).

Situação crítica

O mediador do encontro foi o cientista político e social e professor da Fespsp, William Nozaki que abriu o debate esclarecendo a natureza da crise. Lembrou que, desde o início da pandemia, em março passado, a discussão sobre preservar vidas ou a economia é equivocada. Hoje, o Brasil de Bolsonaro sofre duplamente. “O coronavírus matou mais de uma pessoa por minuto nesta semana. O PIB brasileiro foi o pior das duas últimas décadas. O debate no início da pandemia era o que deveria vir primeiro, saúde ou economia. Nas duas esferas temos resultados preocupantes.”

O debate levantou uma série de questões essenciais para a compreensão do momento. Incluindo ações assertivas tomadas por Edinho Silva em Araraquara, que adotou medidas rigorosas de distanciamento social e rastreio do vírus na cidade. Destaque para o depoimento de Flávio Dino como governador diante do desafio, inédito no Brasil, da necessidade de defender a vida de brasileiros à revelia do governo federal. Também foi apontada a evidência de crimes de responsabilidade cometidos por Bolsonaro pela inação consciente diante da crise, como apontado pelo pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Claudio Maierovitch.

“Nosso governo não foi ‘incompetente’, porque agiu de forma intencional. Ele optou por não adotar nenhuma medida. Teve que engolir um auxílio emergencial votado pelo Congresso. Tentou interromper de qualquer forma e agora oferece 250 reais por quatro meses (…) Vivemos a sabotagem federal a cada uma das iniciativas necessárias. A atitude do governo federal é de disseminação intencional do vírus. Isso está documentado e classificado, do ponto de vista acadêmico. É difícil acreditar que chegamos a este momento”, disse Maierovich.

Indignados

Ao apontar a natureza criminosa da condução do governo de Jair Bolsonaro da crise sanitária provocada pela covid-19, Flávio Dino ressaltou a “cultura da morte” instalada no país nos últimos anos. “Temos um projeto ao redor de uma necropolítica, o ódio elevado que se transforma em apologia à morte (…) Vemos um combate do governo federal contra a prevenção. Se o presidente difunde que o uso de máscaras faz mal, temos que presumir que todos os profissionais de saúde são suicidas provocando dano às suas próprias saúdes”, disse .

“O que vemos não é algo que possa ser adjetivado como erro. É algo criminoso contra a nação brasileira. Digo isso como professor de direito constitucional. Estava presentes, inclusive, elementos de intencionalidade para provocar danos. Existe dolo eventual, o agente assumiu o risco do resultado danoso, conscientemente, deliberadamente”, completou o governador.

Por sua vez, a procuradora e vice coordenadora do Grupo de Trabalho da covid-19 do Ministério Público do Trabalho (MPT), Márcia Kamei Aliaga afirmou que Bolsonaro usa a mentira como aliada para seguir em sua condução desastrosa da pandemia no país. ” Existe uma questão psicológica. O arrastamento da crise por um período tão longo. A profusão de informações desencontradas no campo da medicina. Não me refiro às instituições sérias, mas às que promovem as fake news. Os discursos politiqueiros nos leva a um esgotamento mental. Diante disso, a percepção da crise mudou, a aderência ao isolamento mudou”, disse.

Além da maldade apontada como intencional de Bolsonaro como presidente frente à mortandade de brasileiros por covid, outra unanimidade entre os participantes do debate da Fespsp é a necessidade de lockdown rigoroso no país.

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