Dois Estados só na ficção

Presidente dos EUA, Donald Trump, e primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, chegam à Casa Branca para apresentar plano de paz — Foto: Joshua Roberts/Reuters

Numa cerimônia na Casa Branca que mais parecia um comício eleitoral de dois candidatos aliados, o presidente Donald Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu exibiram as diretrizes de um plano de paz negociado apenas entre EUA e Israel. Os palestinos ganham um Estado, mas por decreto — enclaves cercados por assentamentos e controle militar israelenses — e também um ultimato: é pegar ou largar, não haverá outra chance como essa.

De imediato, Trump e Netanyahu conseguiram unir as duas principais facções palestinas — Fatah e Hamas — contra a sua proposta de paz. O premiê israelense se apressou e marcou para domingo uma reunião de Gabinete para declarar rapidamente a soberania sobre os assentamentos na Cisjordânia e no Vale do Jordão antes das eleições de 2 de março.

O plano americano soluciona, em favor de Israel, os principais pontos de discórdia com os palestinos: Jerusalém permanece indivisível e capital de Israel, o “direito de retorno” de refugiados é abolido e as colônias em território palestino não serão desmanteladas.

Em contrapartida, os palestinos teriam benesses: US$ 50 bilhões em investimentos nos próximos dez anos, novas terras no deserto e a ligação de seus territórios por túneis com trens de alta velocidade.

Bandeira de Israel tremula em assentamento no Vale do Jordão, na Cisjordânia — Foto: Ronen Zvulun/Arquivo/Reuters
Bandeira de Israel tremula em assentamento no Vale do Jordão, na Cisjordânia — Foto: Ronen Zvulun/Arquivo/Reuters

Bandeira de Israel tremula em assentamento no Vale do Jordão, na Cisjordânia — Foto: Ronen Zvulun/Arquivo/Reuters

A solução de dois Estados permanece na ficção. A soberania palestina será limitada: territórios desmilitarizados e sob controle israelense. Com a anexação do Vale do Jordão, Israel ganha uma nova fronteira, cercando o Estado palestino por todos os lados.

Dá para entender por que Netanyahu aplaudia e endossava cada frase de Donald, “o melhor amigo que Israel já teve na Casa Branca”, sem deixar transparecer qualquer vestígio de preocupação pelo indiciamento em três processos por corrupção.

Como observou o jornalista e escritor Anshel Pfeffer, autor de uma biografia sobre o premiê, os planos de paz anteriores eram voltados aos moderados de ambos lados. “O de Trump é direcionado a uma clientela diferente: israelenses de direita, judeus americanos de direita e a base evangélica de Trump”, escreveu em artigo no jornal “Haaretz”.

Genro defende plano de paz proposto por Trump para Israel e Palestina
Genro defende plano de paz proposto por Trump para Israel e Palestina

Genro defende plano de paz proposto por Trump para Israel e Palestina

Tanto a clientela do presidente americano quanto a do primeiro-ministro israelense são atendidas pelo plano. Enquanto os rivais democratas de Trump questionaram a solução elaborada pelo genro Jared Kushner, o principal adversário de Netanyahu, Benny Gantz, não teve outra opção senão endossá-la.

O líder do partido Azul e Branco prometeu implementá-la caso vença em março e — o que tem sido mais complicado — consiga formar um governo com maioria no Parlamento. Gantz também busca superar o impasse político, angariando a simpatia do eleitor conservador israelense. E o plano de paz dos EUA lhe é conveniente, desde que não seja executado por um premiê que será julgado por corrupção.

Tudo indica então que, mais uma vez, a chave da eleição em Israel está nas mãos dos partidos árabes-israelenses. Outro bom desempenho, como nas votações anteriores, bloqueará os esforços de EUA e Israel avançarem na direção de uma paz não negociada com os palestinos.

PÁGINA DO ESTADO

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *