A ordem superior que matou dezenas de amazonenses: quem irá responder?

[faceturbo]

Nassif começa comentando o último dia de mandato de Donald Trump nos EUA: “É interessante o que está acontecendo lá. Começaram as investigações em cima dos terroristas lá que invadiram o Capitólio, e todos eles disseram o óbvio: nós fomos comandados pelo presidente Donald Trump”

“Aqui no Brasil, lá na frente, quando começar a terminar essa era Bolsonaro e todos esses abusos que vieram por aí, o que vai acontecer vai ser que todos esses que forem implicados vão dizer o seguinte: ‘nós seguimos ordens do Bolsonaro, do filho do Bolsonaro, do segundo filho, do terceiro filho’.

“Não tem jeito: o Bolsonaro, ou ele vence ou vai preso. Não tem jeito. Os crimes comuns cometidos são muito graves”

Os dados do GGN Covid mostram que a média diária semanal foi de 54.032 casos, o que significa um aumento de 53% em relação ao visto 14 dias atrás, com 17 Estados apresentando pico de casos na primeira onda, e outros 10 Estados com pico de casos na segunda onda.

Na média diária desta terça-feira ante o visto 14 dias atrás, foi registrado um crescimento intenso em 16 Estados, seis Estados com crescimento forte e cinco com dados em estabilidade. Destaque para os avanços do Maranhão (138,8%), Amazonas (137,4%) e Bahia (133,1%)

“Hoje morreram sete pessoas no Pará e seis no Amazonas por falta de oxigênio. No caso do Amazonas, foi em uma cidade do interior e todos da mesma família. Por falta de oxigênio”

“O Brasil faz parte de uma lista de 69 países que esperam receber lotes da vacina produzida pelo Instituto Sérum, da Índia. Não tem nenhuma confirmação de que o Brasil possa receber mais cedo – você não tem diplomacia para negociação”

Para discutir a questão do oxigênio, Nassif entrevista Walter Cintra Ferreira Junior, médico sanitarista na Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo e professor de administração hospitalar da FGV/EAESP

“Na verdade, a questão do oxigênio hospitalar sempre foi um monopólio com poucos fornecedores. E, com frequência, você tem problemas com os preços praticados, principalmente quando são fornecidos para administração pública”

“O fato é que, em praças onde você tem um mercado menor (talvez seja o caso de Manaus), os hospitais ficam muito mais vulneráveis a essa questão do preço dos gases medicinais de um modo geral”, explica Cintra.

“Apesar dessa situação específica de oligopólio dos fornecedores de oxigênio, o que aconteceu em Manaus não se justifica porque nada do que está acontecendo nessa pandemia, pode-se dizer que era uma situação imprevisível. Pode não ter sido esperada, inesperada, mas imprevisível jamais”

“Os países – tanto os Estados Unidos e o Brasil como piores exemplos -, a última coisa que deveriam ter feito era desmontar as equipes técnicas e sanitárias para combater essa pandemia”

“Mesma coisa na questão do oxigênio em Manaus: em novembro, nós já sabíamos que nós íamos ter uma situação caótica, um aumento da segunda onda na segunda quinzena de novembro já era clara, era só acompanhar os números, os números são públicos”.

“Agravou-se, evidentemente, por conta da farra do fim do ano. Acho que são dois fatores: as pessoas estão cansadas, já há quase 1 ano nessa situação. Adicione-se a isso o péssimo exemplo dado, principalmente pelo governo federal, que bota em dúvida a credibilidade das medidas de isolamento, do uso da máscara, da vacina”.

A consequência é isso que estamos enfrentando, com mortes que não precisariam estar acontecendo, são totalmente fora de qualquer padrão”.

No caso de Manaus: Manaus já havia entrado em colapso na primeira onda, e não havia porque não se imaginar que isso fosse acontecer, já em novembro estávamos isso. Então, medidas tinham que ter sido tomadas, tanto pelo governo estadual como pelo governo federal”

“Se nós não começarmos a responsabilizar os dirigentes, os governantes, pelo caos, pela mortandade que está havendo esse país, nós estamos decretando a barbárie como normal nesse país”, afirma o médico sanitarista

Sobre a falta de oxigênio em Manaus, Nassif lembra a denúncia do promotor Igor Spíndola. “O general Pazuello, o homem da logística, deu uma entrevista dias depois (…) fazendo cálculo financeiro em uma emergência dessas”

Para Walter Cintra, “a sensação que a gente tem é que o Ministério da Saúde não tem noção das coisas”

“Enquanto Manaus estava com os pacientes morrendo sufocados, por falta de oxigênio medicinal, o Ministério da Saúde despacha uma equipe para visitar UBS e propor tratamento precoce com cloroquina. Se isso não é crime de responsabilidade, eu não sei mais o que é”

“E estamos normalizando essas coisas. O presidente fala as bobagens que fala, com esse número de mortos, e a coisa está sendo normalizada. Eu não sei o que o Congresso está esperando para iniciar um processo de impeachment desse presidente por crime de responsabilidade”

Na visão de Cintra, Pazuello também precisa ser responsabilizado – “ele é extremamente conivente, ele não pode dizer que está aceitando ordens do presidente e propondo protocolos que vão contra a ciência”

“Quem deu a ordem para suspender o voo, no mínimo, foi responsável por umas 10 a 20 mortes, coisa subjetiva isso”, diz Nassif, lembrando que Pazuello vai responder por crimes

“A logística, em tempos de paz, é uma coisa burocrática, então ele (Pazuello) era visto como competente. Em guerra, é uma situação em que aparece o inesperado”, explica Nassif

“Agora, imagine o seguinte: se o Brasil estivesse em guerra – e está em guerra de saúde – qual é a formação que se dá a um cara de logística das Forças Armadas? Para fatos novos? Não tem o menor jogo de cintura, não se cerca de pessoas que conhecem o tema”

Cintra lembra dois fatos relacionados aos problemas de logística: os testes contra covid-19 estocados em Guarulhos, e que precisaram ter o vencimento renovado, e o fracasso da licitação para compra de seringas.

“Quando você faz uma licitação e ela fracassa, só existe uma explicação: incompetência da administração. Não existe nenhuma outra justificativa para uma licitação fracassada a não ser a incompetência da administração”, afirma Cintra

Cintra lembra outra licitação fracassada: a compra dos exames de genotipagem da hepatite C e do HIV. “Tinha contrato de fornecimento, e foram deixar o contrato a um mês de vencer para fazer a licitação. Essa é a grande logística de guerra do Ministério da Saúde hoje”

Em comentário, o médico Daniel Dourado diz que a crise sanitária chegou de vez em Jair Bolsonaro. “A crise, da tragédia inaceitável que aconteceu em Manaus, somada a inoperância e a incompetência do Ministério da Saúde para gerenciar uma estratégia de vacinação tem motivado o crescimento do movimento pelo impeachment do presidente da República”

“Esse episódio, a convulsão do governo federal na epidemia de covid-19, deve ser o elemento principal a ser chamado atenção agora. O impeachment precisa ter um fundamento, é um crime de responsabilidade, e o Bolsonaro tem vários, mas precisa ter uma base política para isso acontecer”

“Temos o Bolsonaro, que cometeu inúmeros crimes de responsabilidade e crimes comuns (…) mas o ambiente político ainda está para se formar.

“Nesse momento, é importante chamar a atenção de que sim, na condução da epidemia de covid-19, Jair Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade”, afirma Dourado

Sobre a questão da cloroquina, Cintra cita o professor e médico sanitarista Gonçalo Vecina – “o problema é que tem muito médico burro. Médico burro tá prescrevendo cloroquina, os médicos inteligentes estão seguindo aquilo que a evidência científica nacional e internacional demonstra”

‘Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína…’ – Se Liga Cidadão

Embora a cloroquina tenha indicações precisas e efeitos colaterais, Cintra diz que “o grande problema é você criar no imaginário da população que a cloroquina ou qualquer outra coisa podem ajudá-los a se salvar e as pessoas começarem essas medicações inclusive por conta própria”

“O que o governo precisaria dar – credibilidade e exemplo para as pessoas – ele faz exatamente o contrário”, afirma Cintra

“O que eu fico preocupado é essa situação que nós temos com os insumos e essa política externa desastrada que nós temos (…) Se a gente começa a vacinação com as doses que temos aqui, e depois não conseguimos dar continuidade, nós vamos ter uma situação de desespero da população”, pontua Cintra

“A gente precisa ter muita calma nessa hora, a gente precisa transmitir com muita clareza as informações. Por isso, precisa tirar qualquer possibilidade de informações falsas, de uso político disso, porque nós vamos ter uma convulsão social nesse país”, afirma o médico sanitarista

“A recomendação mais importante nesse momento é: fique em casa quem puder ficar, tome todas as medidas de precaução, uso de máscara obrigatório, lavagem de mão frequente, evite ao máximo aglomeração. Vai demorar muito para a gente ter uma vacinação para chegar na imunidade coletiva”, diz o médico.

 

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