1984 de Orwell, linguagem, política e desgoverno Bolsonaro

“A Novafala foi concebida não para ampliar, e sim restringir os limites do pensamento, e a redução a um mínimo do estoque de palavras disponíveis era uma maneira indireta de atingir esse propósito” – George Orwell

Construção do inimigo no outro, seção destinada a expressar o ódio ao adversário, a figura de um suposto “salvador”, governos autoritários, Liga Juvenil Antissexo, monitoramento da oposição, projeto visando exterminar a pluralidade, negacionismo, guerra à ciência etc. Como definir uma distopia e qual elemento – entre vários – não deve ser negligenciado na análise literária e social? Este artigo tem como objetivo expressar que o domínio político de um governo [ou desgoverno] passa pelo campo da linguagem, este que está em constante contato e trocas com outros campos, como educacional, político, econômico, entre outros. Busca-se tornar legítimo o absurdo. Para isso, serão feitos paralelos conceituais entre a obra 1984, de George Orwell, e a linguagem utilizada pelo executivo brasileiro sob comando da ideologia bolsonarista.

Cabe esclarecer que não serão feitos anacronismos, pois sabe-se que o livro foi escrito em contexto e época diferentes, então, o que será evidenciado é o caráter do domínio linguístico que Orwell deu ênfase ao longo de sua obra, possuindo até mesmo um apêndice destinado a explicar a estrutura do idioma Novafala. Do outro lado do paralelo proposto, encontra-se o linguajar público do [des]presidente da República, este que viola constante e intencionalmente o decoro parlamentar, buscando um apelo popular simbólico que se manifesta nas práticas, fazendo uso tanto de suas vestes e palavras em lives em redes sociais e conferências.

Primeiramente, tomo a adaptação feita por Ortiz de um conceito de Victor Klemperer, este que descreve a emergência de um tipo de linguagem durante a Alemanha nazista, que se apodera de revistas, diálogos cotidianos, jornais e comunicados oficiais, denominando-a de Linguagem do Terceiro Reich (LTR). Ortiz utiliza tal conceito para a realidade brasileira denominando-a de Língua Franca do Boçalnarismo (LFB). Em seguida, o sociólogo discorre que a linguagem “revela uma ‘estrutura’ de pensamento”, na qual busca “tornar banal sua própria aberração” e que “todo sistema autoritário almeja a disciplinarização da linguagem; ela exprime, no domínio público, as virtudes de sua atrocidade” (ORTIZ, 2020).

Segundo a teoria histórico-cultural, o indivíduo se constitui não apenas pelos processos orgânicos, mas através das relações sociais e, a partir dessas trocas relacionais, as funções psíquicas humanas se vinculam ao aprendizado através da apropriação da cultura de seu grupo, fato que ocorre por intermédio da linguagem (REGO, 2000, p. 109). Com isso, convém questionar: qual cultura viria a ser apropriada através da linguagem de um sistema autoritário? Evidenciar que o ser humano é um ser sócio-histórico-cultural é definir que ele se torna e reconhece dentro de um contexto cultural determinado, este que constrói significados que são partilhados entre os seus membros. Pode-se, agora, aproximar de Pierre Bourdieu que define o conceito de habitus como um sistema “das disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto de práticas e das ideologias características de um grupo de agentes” (BOURDIEU, 2015, p.191), convém assegurar que a internalização de um habitus é parte do processo da integração do ser humano em um grupo cultural e que a linguagem que emerge como “estrutura estruturada e estruturante” constitui o elemento de símbolos e significados que será compartilhado, assimilado e reproduzido.

Linguagem e política

Como o ser humano é um ser político, o campo político – como outros também – é afetado pelo eixo estruturado que a linguagem comporta e reflete na sociedade. Em determinada passagem de 1984, certo personagem diz “a impressão de que você acha que nossa principal missão é inventar palavras novas. Nada disso! Estamos destruindo palavras – dezenas de palavras, centenas de palavras todos os dias. Estamos reduzindo a língua ao osso”. Orwell conhecia o poder do campo linguístico na disputa política, em um sistema autoritário, reduzir palavras, destruí-las ou banalizá-las é seguir na contramão de uma democracia e da pluralidade social. Em suma, é tornar comum uma estrutura social que exerce a necropolítica, marginalizando a vida de diversos indivíduos e grupos sociais. No caso brasileiro, é evidente o afeto do [des]presidente da República e de seus eleitores ao regime ditatorial do golpe de 1964, buscam em meio a gritos de “mito!” – “Grande Irmão!”, em 1984[1] – e na criação do outro como inimigo, os comunistas, petistas, esquerdistas, LGBTQIA+, a ciência etc.  – Goldstein, na obra de Orwell –, banalizar a barbárie explícita de matar, estuprar, torturar, pois, como diz Ortiz, ele “dá um passo adiante, justifica a eliminação do outro.”

Frases que condensam a barbárie do exposto até aqui não faltam, por exemplo “Não existe homofobia no Brasil. A maioria dos que morrem, 90% dos homossexuais que morrem, morre em lugares de consumo de drogas, em local de prostituição, ou executado pelo próprio parceiro”; “Jamais estupraria você porque você não merece”; “O erro da ditadura foi torturar e não matar”; “Se fuzilassem 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o país estaria melhor”; “Essa é uma realidade, o vírus taí! Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra, não como um moleque… É a vida. Todos vamos morrer um dia” (presidente da República, Jair Bolsonaro). Ou seja, busca a despolitização do debate público por meio da barbárie da linguagem, refletindo nas práticas sociais o absurdo.

Outra área chave de subversão da linguagem reside em instituições-chave do governo, estas que representam na prática a mediação entre as ideias e os interesses da ideologia imperante. Na obra distópica, o Ministério da Verdade é responsável pela manipulação de notícias, entretenimento e educação; o Ministério da Paz pela guerra; o Ministério do Amor pela lei e ordem, fazendo uso da tortura; o Ministério da Pujança pelas questões econômicas que distorcem os valores reais de produção. No projeto da distopia brasileira, o Ministério do Meio Ambiente busca “passar a boiada”; o Ministério da Economia prefere o dólar alto, pois assim a classe trabalhadora não poderia “viajar para Disney”; o Ministério da Saúde se omite diante da disseminação da Covid-19; o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos não reconhece a diversidade social que compõe seu nome; o Ministério da Educação marcado por cortes em bolsas de pesquisa, enfrentamento com universidades etc.; todos marcados pelos interesses e ideias da ideologia da burguesia brasileira. A corrupção dos significados é um projeto político-social que, esvaziados de seu sentido original, é incorporado no cotidiano, internalizando uma normalização que descaracteriza a sociedade em seu cerne.

Fim autoritário

Do ponto de vista linguístico-social, em uma sociedade na qual a linguagem foi alterada como meio para um fim autoritário, educação, lei, ordem, meio ambiente, economia, entre outros, visam a manutenção do status quo e são ressignificados e corrompidos, exercendo uma relação corrompida entre o emissor e receptor de tal linguagem. As funções linguísticas de contexto, mensagem, canal, código, que correspondem a referencial, poética, fática e metalinguística, respectivamente, se convertem em ferramentas que seguem, unicamente, a orientação emissor → receptor, ou seja, governo → eleitores, constituindo uma via de mão única que não estrutura um governo democrático, camuflando e fetichizando os interesses do capital e do poder político da classe hegemônica. “O autoritarismo transcende o seu núcleo de origem (o Estado e o partido) impregnando a sociedade em seus lugares recônditos” (ORTIZ, 2020).

Para Orwell na obra analisada, o efeito máximo do controle da linguagem sobre o indivíduo e sobre a coletividade reside no duplipensamento, consiste na habilidade de abrigar duas ideais contraditórias, ainda acreditando em ambas. O fator decisivo é que o indivíduo sabe em qual direção suas memórias precisam ser alteradas, ainda sim, sabendo que está manipulando a realidade, porém se convence de que não está sendo alterada. O autor diz que é um processo autoconsciente e está no cerne do governo autoritário de Oceania. É a honestidade ao dizer mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar nelas, esquecer fatos inconvenientes e, se preciso, recuperá-los por um período determinado, é negar a realidade objetiva e reconhecer a realidade que se nega (ORWELL, 2009, p.252). É, em outras palavras, a normalização coletiva e consciente do absurdo e da barbárie. Não é preciso se esforçar para notar semelhanças entre esse conceito e o modus operandi do bolsonarismo por parte da coletividade de seus eleitores, evidenciados ainda mais com a chegada da pandemia do Covid-19 chocando-se, ou atropelando, o pensamento negacionista do [des]governo brasileiro. Segundo Ortiz: “Tudo se passa como se qualquer estupidez pudesse ser dita à revelia dos fatos, sua veracidade é plausível desde que pronunciada com raiva, convicção e alarido. A realidade dobra-se assim ao escarcéu do embuste”.

Em síntese, este artigo não encerra o debate, mas é um aviso, assim como a prospectiva de Orwell não era um ponto final, mas “estava imaginando um futuro para a geração de seu filho – não um mundo que desejava para ela, mas um contra o qual queria alertá-la” (Ibid, p.414). É uma crítica e uma intimação para não desprezarem o campo da linguagem na disputa pelo poder no campo político, sendo a coletividade um dos elementos centrais de disputa, seja para a resistência, seja para a barbárie. A questão do passado e a questão da memória coletiva sempre devem estar em pauta, o passado não resolvido que o bloco no poder busca, em uma visão romântica da história, trazer à atualidade é um passado autoritário. A maior interação entre os campos sociais e entre as diversas áreas do conhecimento, respeitando a pluralidade da sociedade, é um dos principais pilares na defesa dos direitos e na luta de resistência.

Referências

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 8 ed. – São Paulo: Perspectiva, 2015.

REGO, Teresa Cristina. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 14. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

ORTIZ, Renato. Língua Franca do Boçalnarismo: autoritarismo e linguagem. Nexo jornal, 15 de ago. de 2020. Ensaios. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2020/L%C3%ADngua-Franca-do-Boc%CC%A7alnarismo-autoritarismo-e-linguagem. Acesso em: 14 de fev. de 2021.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Editora Schawarcz S.A., Companhia das Letras, 45ª reimpressão, 2020.

[1] Convém, neste momento, uma nota explicativa para que não ocorra possível má interpretação. Ao associar os gritos direcionados ao Grande Irmão, na obra de Orwell, e os direcionados a Jair Bolsonaro na atualidade brasileira, não busco dizer que o [des]presidente brasileiro seja uma representação do Partido de 1984, pois o foco está na linguagem e em sua externalização, configurando o caráter de adoração a uma figura que manipula e age de forma de dominação política através do campo da linguagem. A figura brasileira em questão poderia ser a representação da continuidade da regra oligárquica descrita por Orwell, esta que se configura como a persistência de determinada visão de mundo e de certo estilo de vida impostos pelos mortos sobre os vivos, pois um grupo dominante continua no domínio enquanto puder nomear seus sucessores, afinal, não importa quem exerce o poder, contando que a estrutura hierárquica permaneça imutável (ORWELL, 2009, p.247).

Fonte: diplomatique

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